Ninguém avisa quando acontece, mas há um momento preciso em que o corpo doente deixa de poder querer. Pode ser tratado, medicado, acompanhado, mas deixa de ser autorizado a desejar. A partir do diagnóstico terminal, a sociedade retira-lhe esse direito com a mesma naturalidade com que retira a carta de condução a um idoso. Espera-se resignação, compostura e uma discreta preparação para o fim. Como se a morte e a vida fossem incompatíveis enquanto o coração ainda bate.
Já estive ao lado de uma cama onde o silêncio pesava mais do que qualquer dor. Lembro-me de pensar que ninguém perguntava o que aquela pessoa ainda queria sentir, mas apenas o que ainda podia suportar. Há uma diferença abissal entre as duas coisas.
Em 2025, Dying for Sex, minissérie da FX distribuída internacionalmente pela Disney+, inspirada na história real de Molly Kochan, levou este incómodo para o centro do ecrã. Molly, com cancro terminal, explorou a sua sexualidade nos últimos meses de vida, sem pedir desculpa, sem lições de moral, sem transformar a morte em oportunidade de redenção. O escândalo não residiu no sexo, mas antes na ousadia de alguém sentir prazer quando "deveria" estar a despedir-se.
Mas despedir-se de quê, exactamente? Da vida? Ou da ideia de que a vida só conta quando promete futuro?
Montaigne, o filósofo renascentista, passou anos a pensar na morte. Não em abstracto, tinha quarenta anos, pedras nos rins e amigos a morrer à sua volta. E chegou a uma conclusão que ainda hoje incomoda: a melhor forma de se preparar para morrer era viver com toda a intensidade possível. Cavalgava, comia, desejava, ria. Não como negação da morte mas antes como resposta a ela. Não há nada de novo no desejo de quem vai morrer, existe apenas a coragem de não fingir que já morreu.
A mensagem cultural é subtil mas persistente: se ainda te resta tempo, podes amar, se o tempo acabou, deves resignar-te. Esta ideia, de que o prazer é eticamente suspeito perto da morte, atravessa o Ocidente como um dogma não escrito. Toleramos que o doente terminal sofra, isso é "digno". Mas que desfrute? Aí já nos inquieta. Como se o erotismo fosse uma forma de insubordinação.
Recordo-me de uma cena do filme do Joker em que ele cercado pelo caos que criou, vira-se para a câmara e pergunta: "Why so serious?" É uma pergunta profundamente genuína, feita a uma sociedade que confunde solenidade com respeito, e silêncio com dignidade. O moribundo que ainda deseja, faz a mesma pergunta e recebe o mesmo olhar de desconforto.
Talvez prefiramos moribundos obedientes porque o desejo deles nos lembra tudo o que nós próprios adiamos.
A história de Molly não é isolada, mas é rara. O cinema toca neste tema quase sempre com pudor. Em Leaving Las Vegas, Nicolas Cage afunda-se em álcool até morrer, apoiado por uma prostituta que o acompanha até ao fim. Aqui, o corpo é território de autodestruição, não de afirmação. Em A Culpa é das Estrelas, o erotismo entre adolescentes terminais surge quase como concessão delicada, uma exceção poética ao sofrimento. Mesmo Almodóvar, em Tudo Sobre a Minha Mãe, atravessa o corpo pela memória e pela perda mas nunca pela urgência física de quem sabe que o tempo acabou.
A mensagem não está escrita em lado nenhum. Mas está em todo o lado!
Falamos muito de "morte digna" e quase sempre queremos dizer morte limpa, silenciosa, organizada. Raramente queremos dizer morte autêntica, onde o sujeito possa ser quem é até ao fim. A medicina prolonga a vida mas raramente pergunta como vivê-la. O hospital é talvez o único lugar onde um corpo deixa de ser casa e passa a ser corredor. Vigiado, exposto, regulado, tratado quase que como se de contrabando se tratasse.
Molly Kochan recusou esse pacto. Não quis ser apenas "a doente". Continuou mulher, amante, amiga, pessoa. A sua recusa tornou-se política precisamente por isso quando desafiou a narrativa que exige dos moribundos recolhimento e conformidade. Não glorificou hedonismo, nem romantizou a morte. Apenas lembrou que a vida não termina no diagnóstico e que ninguém tem mandato para decretar quando devemos deixar de sentir.
O prazer não admite adiamentos, é sempre agora. Talvez incomode tanto porque o moribundo já não tem tempo para aparências nem para aprovação.
Montaigne escreveu que filosofar é aprender a morrer. Mas enganou-se numa coisa, ou fingiu enganar-se, que era o seu estilo. Não é a morte que se aprende. É a vida. E aprende-se tarde, quando já não há margem para fingir que há tempo.
No fundo, a pergunta é simples: se a morte é certa, o que torna a vida digna? Não é a duração nem a sua utilidade. Não é a conformidade às expectativas alheias. É a possibilidade de escolher como se habita o tempo que resta.
Talvez não seja a morte que nos assusta. Talvez seja a liberdade de quem já não tem nada a perder. E enquanto houver um corpo que sente, há vida. E enquanto houver vida, subsiste o direito ao prazer, ao afeto, à ternura, mesmo que seja a última vez. E a pergunta não é se concordamos mas se temos coragem de não interferir.