quinta-feira, 11 jun. 2026

Ventura quer reformar-se mais cedo

André Ventura nunca demonstrou querer estar do lado certo da razão, mas do lado forte da emoção; e nunca pareceu interessado na moral, mas no eleitoralismo. Propor reduzir a idade de reforma pode ter sido um erro raro nessa geometria de populismos.

É evidente que a proposta de André Ventura de redução da idade de reforma é uma farsa: ela nunca acontecerá e o próprio André Ventura saberá que ela não é séria, mas dizer uma tolice hoje é diferente de tê-la dito há um ano e meio, quando em campanha eleitoral o Chega propôs igualar a pensão mínima ao salário mínimo. É que hoje André Ventura já não é só um agitador, é líder da oposição e pode vir a integrar um governo. A responsabilidade é muito maior.

É precisamente por ser líder da oposição que é preciso levar a sério esta proposta. E não cair no paternalismo de tratar o Chega com menos exigência do que teríamos se o PS ou PSD a tivessem feito enquanto líderes de oposição: qualquer deles seria massacrado, externa e provavelmente internamente.

Descer a idade de reforma é aumentar os défices do Estado, via Segurança Social ou Orçamento do Estado. E isso só se resolve de duas maneiras, ou aumentando os impostos ou cortando noutras áreas, como a Saúde, a Educação ou a Administração Interna. Não consta que o Chega tenha proposto tal matemática, ou sequer que tenha esboçado uma equação deste género.

É aqui que Ventura pode ter cometido um erro grave na sua estratégia de crescimento. Não é por dizer um disparate nem por estar do lado inaceitável da moral - por exemplo, e embora me custe aceitá-lo, não estou certo que Ventura tenha perdido mais votos dos que os que ganhou ao ter criticado o ministro da Administração Interna perante o escândalo avassalador das violências e violações nas esquadras. Se os violentados ou violados não fossem de minorias, talvez Ventura tivesse dito outras coisas. As que disse são inaceitáveis. Mas não necessariamente impopulares entre alguns segmentos dos eleitores do Chega.

A diferença no caso das pensões de reforma é que Ventura pode até cativar mais eleitores mais velhos, na casa dos 60 a 65 anos. Mas aliena numa só rajada um segmento eleitoral que se tem mobilizado para ir às urnas e tem votado à direita: os jovens.

Curto e grosso: descer a idade de reforma só seria possível com aumento da dívida pública e dívida pública são impostos futuros, que serão pagos pelos jovens e pelos seus filhos que ainda nem nasceram. E mesmo que muitos jovens queiram “partir isto tudo” e votar contra “um sistema que rouba”, duvido que queiram sustentar uma geração que eles veem como egoísta, a que hoje está a reformar-se, e que lhes deixou perspetivas de vida piores do que as que tiveram.

Ventura não é doido e está-se nas tintas para todas as lições de moral que qualquer político, comentador, instituição ou adversário lhe queira dar. Pelo contrário, ele usa essas lições ora para se vitimizar, ora para denunciar as autopreservações dos instalados. Mas neste tema da redução da idade de reforma, uma irresponsabilidade financeira que seria suportada pelos mais jovens, o líder do Chega pode mesmo ter cometido um erro crasso no seu mapa de eleitoralismos. E virar os jovens contra si. E contra os seus pais e avós.

Um país não se constrói assim.