Políticos como Donald Trump desatam ao palavrão na praça pública como quem descalça uma botas apertadas e as atira à parede: com um sentimento de libertação, de alívio dos constrangimentos dessas invenções humanas chamadas etiqueta, boa educação e diplomacia. A questão é simples: a partir do momento em que se escreve pela primeira vez «Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards», derruba-se um limite que milhares de políticos em todo o mundo não ousavam até aí passar. É uma questão de dias até um dos bravos populistas europeus mandar uma bojarda do estilo.
(É aliás curioso ver a forma púdica como a publicação de Trump foi traduzida por várias publicações em Portugal – e não só).
E no entanto, a linguagem do homem que ocupa o lugar de líder do mundo livre é o menos importante daquela mensagem. Para Trump, a diplomacia é o ócio dos impotentes. Com Trump, o respeito pelas ‘outras’ religiões é uma forma de wokismo. Em Trump, o direito internacional é letra morta. Muita gente letrada adora este fuck-it. É tão mais fácil ir para o recreio andar à pancada.
De caminho, não apenas se passa da lei que protege o mais fraco para a lei do mais forte como se inventa uma nova forma de estar no mundo.
Esta nova forma – sem lei mas com força, sem acordos mas com negócios, sem barreiras mas com fronteiras, sem preocupações mas com ocupações – vai sair-nos cara a nós, europeus, e durante muitos anos. Não somos nem suficientemente inteligentes para liderar inovações nem suficientemente espertos para enganar os ‘outros’. Somos nós também a civilização inteira.
TAP. O Governo não quer adiar a privatização, mas é certo que hoje a TAP vale menos do que há um mês e meio. A TAP e virtualmente todas as companhias aéreas. Qualquer empresa é avaliada sobretudo pelos seus lucros futuros e, este ano, a guerra no Irão tem um impacto certo nos custos e incerto nas receitas. Nos custos, o aumento do preço do petróleo devora lucros à velocidade de um avião; nas receitas, tudo depende ainda do impacto no turismo global. Mas há uma segunda razão para baixar a expectativa de encaixe financeiro: a desistência da AIG (British Airways/Iberia). Não só há assim menos um concorrente, como a AIG está com bolsos fundos e podia pressionar os demais concorrentes a subir preço. Claro que a AIG terá percebido que a probabilidade de ganhar era muito baixa, por causa da Iberia, e a concorrência do hub de Madrid ao hub de Lisboa – este grupo estava destinado a ser a ‘lebre’ do concurso. Preferiu não descolar. A competição segue agora entre dois grupos que mostram grande e genuíno interesse há muito tempo. O Estado venderá com prejuízo, face ao dinheiro injetado após a pandemia, mas o mais importante é o projeto industrial e garantir o futuro do hub de Lisboa. E aí que tudo se vai decidir. E deve.