sexta-feira, 12 jun. 2026

Trabalhar para aquecer

A negociação do código do trabalho é ela própria uma acabada demonstração de baixa produtividade: dos agentes políticos e sociais envolvidos. Tanta hora de trabalho para produzir tão pouco?

Sete meses disto. De reuniões entre Governo e parceiros sociais. Quase 60 reuniões. Se em cada uma tiverem estado dez pessoas durante duas horas mais uma hora de preparação, foram gastas mais de 1800 horas de trabalho humano. Se cada pessoa tiver um salário bruto de 2000 euros mensais, isto custou perto 100 mil euros em horas pagas de trabalho. E para produzir o quê? Nada, quase nada, passos num impasse, desacordo e discórdia, chumbos numa cana de pesca sem isco nem anzol mergulhados no Mar Morto.

Pois não é assim que se calcula produtividade? Com custos e produção por hora de trabalho? Mesmo que os pressupostos sejam outros, e o resultado final diferente, a conclusão é sempre a mesma: desperdício de horas de trabalho, de salários e de inteligências.

Senhoras e senhores agentes políticos, governantes e assessores de Ministérios que tanto dizem querer aumentar a produtividade do país; senhoras e senhores sindicalistas, que tantos se escusam a assumir qualquer responsabilidade no aumento de produtividade; senhoras e senhores patrões e representantes de patrões, que tanto se queixam da falta da produtividade do país e nas empresas - obrigadinho pelas aulas de sapiência e pelas lições de moral, mas sois péssimos exemplos de eficácia e eficiência, de produção e produtividade, de negociação com outros e gestão dos próprios.

Há alguma ironia neste comentário, mas parte dele é bastante literal. Esta negociação foi em grande parte uma simulação: do Governo na preparação da proposta, sem auscultação prévia nem inclusão de propostas favoráveis aos trabalhadores que lhe dessem margem de cedência equilibrada; da CGTP, que nunca negoceia, e da UGT, que conseguiu ser corpo presente de vontade ausente. Tudo isto devia ter acabado há meses, as últimas rondas foram só para o faz-de-conta - e o faz de contra.

Agora, a negociação ruma à Assembleia da República, onde a AD conta sobretudo com o Chega, que já se atirou para o chão com a redução da idade de reforma e o aumento do número de dias de férias. Se for aprovada, a proposta seguirá para Belém, onde António José Seguro ou a chumba ou perde a palavra, já que prometeu na campanha eleitoral que chumbaria qualquer alteração do código do trabalho não aprovada em concertação social. Então, o diploma regressa à Assembleia da República, onde os mesmos poderão aprovar de novo a lei e impô-la ao Presidente da República.

Ou seja, mais uma data de semanas (meses?) pela frente, num processo que acabará por durar cerca de um ano desde o arranque, de uma reforma que não é muito boa nem muito má, não destrói os direitos dos trabalhadores nem constrói as condições de trabalho necessárias para a detonação em curso provocada pela inovação tecnológica.

Isto não é um código do trabalho, é uma carga de trabalhos não se percebe bem porquê nem para quê. É trabalhar para aquecer. É trabalhar para esquecer.