Chega a ser enternecedor assistir ao espetáculo ‘Salvem o ministro’ montado pelo Governo, pelo PSD e por alguns comentadores. A monotonia do tema cai-não-cai é uma nova estupidificação produzida pela bolha, como se a consequência única desta incompetência paquidérmica fosse esse pêndulo.
No fundo, é simples: Fernando Alexandre irá manter-se não porque o caso seja ligeiro mas porque o PSD não tem melhor do que ele. Que fique e poupe-se a histeria, hão de encontrar alguém a quem cortar a cabeça e servir de bandeja aos canibais da responsabilidade.
A fundo, é complexo. O que sucedeu nos exames nacionais é intolerável, é amador, arrogante e traidor dos princípios mínimos da competência. Não é só pela ansiedade causada aos alunos e sobrecarga de trabalho exigida aos professores, é também porque – ao contrário do que diz Fernando Alexandre – haverá alunos mais prejudicados que outros. Os mais pobres, os filhos de pais com menos qualificações, os miúdos do interior – que são precisamente aqueles para quem a educação mais representa possibilidades de futuro.
Não defendo a demissão do ministro, já aqui escrevi e rescrevo que Fernando Alexandre é mais capaz do governar que outros capatazes do Governo, mas defendo que ele saia deste caso com a ferida talhada da responsabilidade falhada.
Mário Centeno afirmou uma vez, ironizando, que este Governo só tinha um economista: referia-se a Fernando Alexandre mas o alvo da frase era Miranda Sarmento, licenciado em Gestão. Os académicos de Economia olham para os de Gestão com superioridade, sempre assim foi, como os surfistas olham para os bodyboarders ou os romancistas para os contistas. Mas aqui o que faltou a Fernando Alexandre foi precisamente conhecimentos de Gestão.
É preciso nunca ter feito um projeto tecnológico na vida para se fazer um projeto tão mal. Nem uma migração de sistemas nem um raio de um site. Qualquer pessoa com experiência sabe que corre sempre mal. Há sempre desvios. Nunca se acerta à primeira. Algo falha. A sério, perguntem a qualquer gestor de grandes projetos ou a qualquer gestor de empresa grande, ele explica. Nunca um processo tão pesado poderia ter sido entregue a uma empresa com tão pouca capacidade. Nunca um processo tão complexo poderia ter sido feito em versão on/off, desligando um (o velho) para implementar outro (o novo). Repito, perguntem a quem já fez, eu perguntei. Há sempre processos de produção em paralelo com processos em pré-produção, caminhos paralelos e simultâneos, entre a experimentação e a redundância. O básico falhou, o que foi agravado pela arrogância inicial com que o caso foi lidado. Fernando Alexandre nem precisava de ter perguntado a ninguém fora do Governo: bastaria ligar ao secretário de Estado para a Digitalização, Bernardo Correia, que veio da Google. Ele faria o desenho até para totós.
Há bons argumentos para defender a manutenção do ministro e há argumentos ridículos. Assunção Cristas, por exemplo, disse que Fernando Alexandre é inocente porque não houve um problema político, mas sim um problema técnico. Ou seja: encontrem aí um tecnicozinho para decapitar.
O Governo existe para pensar, e não para fazer? Então é preciso mudar o slogan de Montenegro de ‘Deixa o Luís trabalhar’ para ‘Deixa o Luís pensar’. E reformular a ambiciosa missão do Governo, ensimesmada na frase «resolver os problemas das pessoas», para «resolver os erros autoinfligidos pelo Governo». A ideia do projeto dos exames é boa, no final o processo de avaliação será mais transparente e terá maior controlo de qualidade, mas da mesma forma que um arquiteto precisa de um engenheiro, um político precisa de rodear-se de gente capaz. Caros ministros, afixem no frigorífico: Se só penso, logo não existo.
Agora o caro leitor perguntará: mas porquê esta sova no ministro da Educação e nem uma frasezinha sobre o MAI? Primeiro, porque sou mais exigente com aqueles de quem espero muito, e Fernando Alexandre já perdeu a virgindade e vai para a sua terceira vida no Governo. Depois, porque creio que nem os incêndios servirão de mudança de assunto para esse outro episódio de ‘Salvem o ministro’.
O caso de Luís Neves não é técnico, é político. Nenhuma outra cabeça pode rolar pela dele. Tem inimigos dentro de vários dentros (PSD, MP, PJ?…). E parece tudo tão grave que não se vê saída fina.