Tudo isto é uma tristeza. Como é que um homem com um passado na Polícia Judiciária de reputação à prova de bala é incapaz de se desembaraçar de rabos de palha, telhados de vidro, pés de barro, calcanhares de Aquiles? Como é que um homem com um futuro como ministro de ação e autoridade fortes num governo assim-assim se desnorteia como uma avestruz espavorida no corpo de um leão orgulhoso e ferido?
Quando o Nascer do Sol revelou em primeira mão a notícia original, parecia um conflito de interesses: Luís Neves tinha contratado um fornecedor da PJ, era no mínimo uma imprudência. Mas depois veio o tanque que afinal era piscina sem licença, com pagamentos em dinheiro não documentados, para pagar serviços não faturados, de quem não entregou declarações de rendimentos mas entregou uma galera apreendida com material usado para produção de droga.
Finalmente, Luís Neves apresentou-se para explicar tudo, «muito claramente», «ponto por ponto», ou tonto por tonto, numa conferência de imprensa francamente penosa. Um ministro com os nervos em franja, enrolando palavras e destruindo gramáticas, acossado, sem saber bem como habitar aquele novo espaço tempestuoso pós-hubris onde se vê inesperadamente despojado da autoridade amplamente reconhecida até aqui.
São erros formais, dirão. São erros informais, respondemos. É isso que resulta da conferência de imprensa, Luís Neves não roubou nada nem ninguém, tudo se explica com informalidades, manhas, chico-espertices, portuguesismos, gajos porreiros, pancadas nas costas, qual é o mal, pá?, isto é Portugal, pá, não é um convento de freiras, pá, faz-te à estrada e vai chatear o Camões!
Tudo isto é uma tristeza, tudo isto ameaça a dupla tragédia. A tragédia de ver um excelente diretor da Polícia Judiciária, com provas mais do que dadas de um grande trabalho de equipa, e uma grande promessa de ministro transformar-se em vingança daqueles que enfrentou.
Na PJ, cartéis de droga, traficantes, assassinos, violadores, burlões, criminosos violentos, a PJ não nasceu com Luís Neves mas foi com Luís Neves que ganhou meios, pessoas, melhores salários – e mais respeito por cumpridores e medo por incumpridores. Ver esse trabalho ensombrado por um tanque e um atrelado é manifestamente desproporcional.
Na política, o Chega. Luís Neves enfrentou os populismos que relacionam imigração e crime. Deu com os pés em Ventura, que quer a sua cabeça como demonstração de força e de poder. Ventura glosará um antigo socialista, «quem se mete com o Chega, leva». Nada lhe dará mais prazer.
Luís Neves tornou-se pois um grave problema: para ele próprio, pelo roer de parte da sua reputação; para o Governo, que vai no seu terceiro ministro da Administração Interna; para o centrão institucional, que vê André Ventura capitalizar sobres os seus erros e vilezas. Esta semana, sobre este triste caso, quem melhor falou foi André Ventura e Rui Rio. Não só porque criticaram o ministro e o Governo, mas porque o fizeram com razão.