quarta-feira, 22 jul. 2026

Os bota-abaixo são sempre-em-pé 

Temos um Governo funcional num Parlamento disfuncional. A tese de que o Governo ia reformar à direita e aprovar OE à esquerda está agora dinamitada. 

O Chega nunca perde porque nunca faz. O Chega sabe protestar, contestar, detestar porque o Chega sabe estar onde lhe convém: no lado dos bota-abaixo que, por isso mesmo, são sempre-em-pé.  

O chumbo do pacote laboral foi mais que um número de ilusionismo em que o Governo se esparramou ao comprido no chão, foi também um desilusionismo para quem achou que o Chega aceitaria colocar-se num lugar entre o aliado e o alinhado. Pronto, estamos esclarecidos, ao Chega não se compra nada em segunda mão nem se vende sem pagamento à cabeça. Mas o que fazer contra uma força tão poderosa parlamentar quanto inútil para legislar? 

Façamos um exercício comparativo com outros populistas. Os do Reino Unido. 

Celebrou-se há dias o décimo aniversário sobre o referendo ao Brexit. Dez anos depois, é preciso desfiar um largo palheiro para encontrar um seu protagonista que diga que valeu a pena. O que há é o contrário do prometido: menos crescimento económico, menos comércio, menos investimento – e mais imigração (sim, mais imigração!) – estão na base de sondagens que indicam que dois em cada três britânicos respondem que o Brexit foi um fracasso. O dominó de primeiros-ministros tombados é uma consequência disso, do pacato Keir Starmer ao estridulante Boris Johnson, que foi aliás um dos grandes defensores do Brexit. Mas não o único: se Boris Johnson fez campanha representando sobretudo os britânicos conservadores, Nigel Farage assumiu a dianteira junto do povo dos ‘deixados para trás’. Contudo, ao contrário do que a lógica poderia sugerir, os apoiantes de Nigel Farage não se viraram contra ele por causa do desaire do Brexit que ele tanto defendeu. E porquê? Porque ele próprio explica que a culpa não foi do Brexit, mas dos primeiros-ministros incompetentes que não o souberam fazer bem nem governar o reino pouco unido para dele beneficiar. Está a ver? Um verdadeiro populista nunca perde – porque nunca é responsável nem é, apesar disso, visto pelos seus apoiantes como irresponsável. 

É por causa desta sina que alguns políticos dizem que o Chega tem de entrar no poder para então se liquidar, ou numa explosão orçamental por causa dos custos das suas políticas, ou numa implosão das suas radicalidades, como já aconteceu com partidos de protesto quando chegam ao poder, como foi o caso flagrante do Syriza na Grécia. 

Enquanto esses futuros não chegam, temos um Governo funcional num Parlamento disfuncional. A tese de que o Governo ia reformar à direita e aprovar orçamentos do Estado à esquerda está agora dinamitada, chamando PS e PSD à razão quanto à prestação social única. Ou se atendem primeiro para se entenderem depois ou as pernas do poder não se descruzam para caminhar. A Prestação Social única não é propriamente uma reforma estrutural, é uma simplificação de apoios sociais com reforços de fiscalização da sua aplicação, mas é ao menos decidir, negociar e aprovar: é governar. 

A não ser que… a não ser que a Prestação Social Única seja mesmo uma reforma estrutural e não tenha sido apresentada como tal. O governo assume claramente que é preciso reduzir os incentivos para não trabalhar, o que sugere que defende que quer que tanto o acesso à PSU como os valores da prestação sejam inferiores aos atuais, mas sobre uma coisa e a outra quase nada disse. A mera omissão sobre os valores sugere que, no futuro, os valores médios da PSU serão inferiores aos valores médios das 13 prestações atuais que serão fundidas. O PS percebeu a omissão e exigiu que, no futuro, os valores sejam decididos através de decreto-lei de governo, o que permite ao Parlamento chamar o tema à discussão. Ou muito me engano, ou é exatamente isso que vai acontecer: o Parlamento quererá decidir os valores da PSU. Assim poderá querer o PS. E assim poderá querer… o Chega, defendendo prestações mais altos para os mais velhos e mais baixas para os imigrantes. É que governar é muito difícil, mas desgovernar é facílimo.