Este Governo promete muito e consegue pouco, porque tem pouca imaginação para pensar e pouco poder para fazer. Há duas notáveis exceções: a descida de impostos e as leis de imigração. E como não há propriamente grande oposição a descer impostos, nem política nem popular, a única reforma completa que este Governo tem para a apresentar ao fim de dois anos é a da imigração.
Essa reforma felizmente falhou na aberração (legal e humana) de retirar a nacionalidade a condenados judicialmente, proposta em que, aliás, o Governo pareceu autoconsciente da sua provável invalidação jurídica e só fez para esvaziar o também provável protesto do Chega. E felizmente acertou no fim da manifestação de interesse, outra aberração (política) que ficou conhecida na vulgata como ‘escancarar as portas’, e que se transformou num mecanismo de ‘legalização de ilegais’, ao mesmo tempo que deixava entrar quem ficava desprovido de direitos.
É por coisas como estas que a posição do PS é difícil de compreender. Não apenas por, no passado, ser pai da manifestação de interesse, mas por, agora que o pai saiu de casa e foi para o Conselho Europeu, defender a imigração com argumentos meramente económicos.
Antes, o PS argumentou que era preciso ter imigrantes para suprir carências de mão de obra e ter quem descontasse para a Segurança Social num horizonte de declínio populacional; agora, o PS justifica esse crescimento de população estrangeira sobretudo com o ‘lucro’ que ela gera na Segurança Social.
Os argumentos são verdadeiros, mas não são os únicos. É surpreendente como o PS não se dá conta da contradição: justifica a imigração com argumentos tecnocráticos, meramente económicos, tratando os imigrantes como mercadoria que se importa: força de trabalho (barata) que se importa por necessidade e lucro, para dispor de mão de obra explorada através de baixos salários e que desconte ao fim do mês para a Segurança Social. O PSD tem uma linguagem parecida, é certo, e acrescenta-lhe um desejo pouco secreto de que bom, bom seria que estes imigrantes não se vissem, saíssem de casa para trabalhar e voltassem para as suas caves, sem presença nem corpo. A única diferença é que o PSD, ao contrário do PS, não é moralista sobre a imigração. E, no meio disto, poucos se colocam no lugar do imigrante, que é continuamente desprezado e hostilizado.
Mas sejamos, então, ‘economicistas’, assumindo a carga pejorativa da palavra. O facto de sermos afinal muito mais pessoas neste país do que supúnhamos, como o INE veio confirmar, mostra outra coisa. Mostra que um país que tem como Plano A a entrada de estrangeiros (imigrantes, expatriados, turistas, investidores, trabalhadores…) não tem Plano B para lidar com a sobrecarga que isso provoca nas estruturas e infraestruturas do país.
São mais pessoas a habitar ou pernoitar, mais pessoas a circular nas estradas, mas pessoas a precisar de burocracia do Estado, mais miúdos nas escolas, mais pacientes nos hospitais, etc. etc. etc.. Este país não pensa nem planeia, não investe no futuro nem sabe sequer o que significa futuro nem longo prazo. E isso divide-se entre PS e PSD, porque o Governo anterior não quis saber de nada e este de pouco quis saber.
Esse sim é o desastre social, de um país que se divide, continuamente, seja contra quem for, inclusive contra si mesmo. O declínio populacional e a ausência de modelo económico sustentável criaram este problema gigante, na habitação, nas escolas, nos hospitais, e não rigorosamente pensamento nem política sobre o tema. Foi por sermos poucos que precisámos de ser muitos – e enquanto alguns se lambuzam com a carga de impostos que isso gera, somos nenhuns a resolver as sobrecargas evidentes de um país que não se pensa.