Se passar à segunda volta, como todas as sondagens desta semana sugerem, André Ventura já terá conquistado uma vitória política. Mas se, além de passar, for o mais votado na primeira volta, então teremos o primeiro grande facto político do ano: depois de o Chega passar o PS em 2025, o seu líder passa o candidato apoiado pela AD em 2026. Mais do que líder da oposição, proclamar-se-á o líder partidário mais votado, assim legitimando-se autónomo e contra o governo. Será o Parlamento ao contrário. Poderá até ser o ‘não é não’ ao contrário.
Este é o pesadelo de Luis Montenegro. Não o de assistir a uma possível derrota de Luís Marques Mendes, mas o de ver Ventura somar votos e assomar à posição de fiel da balança da capacidade governativa. Sobretudo se, mesmo derrotado numa segunda volta, tiver mais do que 33,15% dos votos – mais do que a AD teve nas legislativas.
Ventura dirá de então em diante duas coisas: que, como em França, o sistema precisa de juntar-se todo para o derrotar; e que não tem nem a volição partidária nem a vinculação eleitoral de contribuir nem para a estabilidade do governo, nem para dar concretização legislativa ao poder executivo. Essa ‘viabilização’ ficará a cargo do PS. Orçamentos do Estado? PS. Sobrevivências do governo a moções? PS. Aprovação de medidas legislativas impopulares? PS. Queres fiado? PS.
A estrondosa vitória da AD nas autárquicas deu a Luís Montenegro peneiras que ele agora poderá perder. O governo não cai este ano, claro, e talvez não caia no próximo, mas Ventura irá manter quente o óleo da fritadeira política, gastando e desgastando um Executivo que precisa de mostrar que tem mais do que garganta reformista.
Até aqui, o governo tem essencialmente descido impostos e beneficiado funcionários públicos e pensionistas, com muitas das reformas anunciadas focadas mais no capital do que no trabalho, mais em grandes empresas do que em pequenas, mais em quem tem dinheiro do que em quem o conta. O Chega não é contra isso, o Chega gosta de empresas, de capital, de baixas de impostos, mas, como se viu na legislação laboral, que Ventura primeiro sinalizou que aprovaria e depois rejeitou em seu benefício eleitoral, o Chega aprova leis para cumprir as suas bandeiras mas sobretudo em função da sua agenda de poder – e, se necessário, vira de um dia para o outro o discurso para o lado dos ‘trabalhadores’, dos ‘precários’, dos ‘mal pagos’.
Curiosamente, neste final de campanha, enquanto Gouveia e Melo critica as empresas de sondagens, Mendes critica Cotrim e Cotrim critica as campanhas negras, quem está implicitamente a ativar o receio de uma vitória na primeira volta de Ventura é António José Seguro. Ao sublinhar a importância de que Ventura não fique em primeiro este domingo, está a mobilizar os seus eleitores potenciais. Incluindo muitos que, há meses, votaram AD.
As sondagens indiciam que, independentemente de quem passa à segunda volta, Ventura não será Presidente da República. Não precisa disso para almejar o seu objetivo. Basta-lhe ser o que já é hoje, um residente da República – e o residente da Assembleia da República que, mesmo no paradoxo de ser cada vez mais parte do sistema que jura querer destruir, coloca o discurso extremista no centro do poder de decisão. E talvez mesmo o poder de derrubar o Governo, pondo Montenegro e o próximo Presidente como torre e rei que farão roque para sobreviverem no tabuleiro de xadrez que deixaram de dominar.