segunda-feira, 17 ago. 2026

O preço da primeira posta da TAP

Privatização da TAP avança a passos largos, daqui a nada o dinheiro estará em cima da mesa. Mas há mais do que dinheiro nesta venda.

O Governo anda de cabeça no ar por causa de ministros que andam de cabeça perdida. Há um ano, nos corredores do PSD dizia-se (muito baixinho…) que o problema eram ‘as mulheres’: as ministras Ana Paula Martins, Rita Júdice e Maria Lúcia Amaral, depois de Margarida Blasco. Este ano, surpresa!, nos mesmos corredores diz-se (pouco baixinho…) que o problema está nos dois ministros que provavelmente têm melhor imprensa: Fernando Alexandre e Luís Neves. Mas enquanto se aguardam as notas dos exames do ensino superior e se guardam as faturas-recibo de tanques e piscinas inferiores, outro ministro está a avançar com um negócio necessariamente controverso: a venda da TAP.

No final deste mês, aterrarão na mesa de Miguel Pinto Luz duas propostas de preço, uma dos alemães da Lufthansa e outra dos franco-neerlandeses da Air France/KLM. As propostas ainda não estão fechadas, mas informações frescas de várias fontes apontam para avaliações acima dos dois mil milhões de euros – bem mais do que se esperava há um ano, quando o processo se iniciou. Isso fará o Governo luzir de felicidade. Mas teremos então de fazer outras perguntas:

Qual é o projeto industrial de cada proposta para a TAP? Investir em mais e melhores aviões, para disputar mais rotas e canalizá-las para os aeroportos portugueses?

Quem vai mandar na TAP? Que autonomia e delegação de competências prevê cada proposta, no sentido de fortalecer a TAP em vez de a subordinar a ordens longínquas? Qual é o acordo acionista e de governo da companhia proposto?

Quem comprar agora a primeira posta da TAP tem porta aberta para uma segunda fase em que passe a controlar a maioria? E, nesse caso, consegue o Governo garantir que essa segunda fase tem apoio no Parlamento?

O compromisso de manter a TAP em Portugal, garantindo o futuro do hub de Lisboa, é perpétuo ou transitório?

Qual a relação entre a privatização e o novo aeroporto de Lisboa?

Qual é a proposta de cada interessado não só para Lisboa mas para os demais aeroportos portugueses?

As perguntas são muitas e das respostas pouco se saberá no fim deste mês. Mas serve este texto de prevenção: quando ouvirmos que as propostas financeiras são muito melhores do que se esperava, é preciso dizer ‘sim, mas…’ e o mas são as curvas e contracurvas das negociações. Em todas as privatizações anteriores, o que correu bem e o que correu mal nunca foi exatamente o preço, mas condições mais ou menos leoninas que desconhecíamos no momento do anúncio da venda.

Desde sempre que sou a favor de uma TAP privatizada. Desta vez, a companhia tem o balanço ‘limpo’ (por uma brutal injeção de capital do Estado depois da pandemia) e os interessados são de primeira divisão. O interesse estratégico da companhia permanece o mesmo: as rotas transatlânticas. O interesse estratégico de Portugal também: a centralidade necessária dos nossos aeroportos, num país cada vez mais ‘estrangeirado’. Vender a bom preço é importante mas não é o mais importante. O importante é o futuro para Portugal que cada interessado propõe. Que seja às claras - e dos dois lados.