Tudo isto pode acabar em quase nada, apenas um atraso de três dias na correção dos exames nacionais. Três dias é um inconveniente, pronto, não devia acontecer mas adiante, pede-se explicações, dá-se um puxão de orelhas ao Ministério da Educação e o país segue para bingo. Mas se no dia 17 as notas não são publicadas, ou se o forem de forma errada ou incredível, o ministro esborracha-se no chão como um figo maduro.
Fernando Alexandre é provavelmente o ministro com melhor imprensa dos últimos dois anos de governos, incluindo nesta coluna. Pela vontade de abater inércias, sim, mas sobretudo porque praticou um discurso de devolução da dignidade profissional e social aos professores e, ao mesmo tempo, desenhou políticas que colocam no centro do sistema não os professores nem os pais, mas os alunos. Sucede que o tempo vai passando, ainda hoje persiste o problema original de haver alunos no secundário sem professores e agora surge esta peripécia-ou-tragédia de a correção dos exames nacionais estar em risco.
Este problema parece misturar problemas administrativos antigos com excessos de confiança política novos.
Primeiro, a paquidermia administrativa. Não é por acaso que a produtividade é menor no Estado do que no privado, o Estado está pessimamente equipado, tem sistemas informáticos antigos e não comunicantes, e desdobra-se em paralisantes camadas de tarefas, provações e aprovações. Mais, o Estado permanece uma estação de serviço do poder político e uma bomba de abastecimento dos partidos: há milhares de chefias que são tachos, de gente incompetente para a função que compensa a sua absoluta mediocridade com práticas de autoridade para massacrar a moleirinha aos chefiados. Tudo é lento, tudo tende a ser a montanha inultrapassável no vale da qual está a água choca onde boiam as inércias e o novo naufraga.
Segundo, a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço. É um velho ditado da Gestão que se revalida teimosamente. Isso é visível neste Ministério como no da Reforma do Estado, sempre que se levanta uma pedra descobre-se um lacrau, sempre que se desfralda uma bandeira é serrado um mastro. É uma resistência que vence pelo cansaço. A diferença entre o entusiasmo contagiante do discurso do ministro Gonçalo Matias e os resultados efetivos das suas políticas implementadas explica-se por essa devoração do ‘Estado real’, que espera, paciente, que a passagem do tempo transforme a rocha em areia que o vento levará.
Terceiro, a arrogância reformista. O pecado original de qualquer governante acabadinho de chegar a um governo é sobrevalorizar-se a si mesmo e desvalorizar a máquina antes de si construída. Fernando Alexandre desenhou uma política de digitalização de exames ignorando que na vida real alguns deles seriam erradamente agrafados; fê-lo assentando em soluções tecnológicas de que provavelmente não percebe nada, assim replicando um erro típico de milhares de gestores e políticos portugueses, o de aprovarem projetos tecnológicos que para eles são chinês, sem que tenham ninguém nas suas equipas de liderança com competências para avaliar o que quer que seja, assim limitando-se a acreditar nos que lhe dizem que ‘vai correr tudo bem’. Qualquer pessoa com experiência sabe que não corre bem à primeira, é preciso fazer modelos beta, testá-los, rodá-los, corrigir falhas. De outra forma, serão responsáveis por uma falha técnica que não percebem de uma solução tecnológica que não entendem.
Aqui chegados, a solução transformou-se num problema e o problema não é técnico, nem tecnológico, é político; não é do Estado, é do Governo; e não é só do ministro, é do primeiro-ministro, dos pais e sobretudo dos alunos.
Ou então dia 17 tudo corre bem, o ministro dá uma conferência de imprensa a vingar-se das críticas e a seguir fecha-se sozinho no escritório, bebe meia garrafa de um vasodilatador puro malte às escondidas e dá um suspiro de alívio tão profundo que, nem que seja por um segundo, cumpre inadvertidamente o desejo de abanar os alicerces do Ministério.