A Europa adormeceu à sombra de um amigo, acordou e percebeu que estava dormindo com o inimigo. Os Estados Unidos eram e poderão voltar a ser aliados, mas não o são nem se comportam como tal agora. Está na hora de assumir o que isso significa para nós. Nós, europeus.
Donald Trump faz pouco dos europeus porque só respeita a linguagem da força. A Europa é dependente e consentiu continuar a ser dependente. Há mais de uma década que se repete o lugar-comum de que «a Ásia produz o que os Estados Unidos consomem com dinheiro emprestado pela Ásia, e a Europa fica para museu que asiáticos e americanos visitam nas férias». Esta simplificação representa o declínio industrial da Europa, mas basta olhar para a indústria automóvel para confirmar que permanecemos em negação até sermos ultrapassados por uma nova tecnologia, neste caso as baterias e as viaturas elétricas.
A Europa é dependente na energia, na tecnologia, nas forças armadas e no sistema financeiro, fica para trás na inovação empresarial e não consegue estar à frente na geopolítica. Há dias, em Davos, o secretario do Tesouro, Scott Bessent, zombava de nós – sim, de nós – dizendo que com certeza iríamos ativar «o temível grupo de trabalho», que qualificou como a nossa «arma mais poderosa». A linguagem é deplorável, mas assenta-nos o barrete.
O que nos trai não são apenas as tentativas de assassinato do multilateralismo e do institucionalismo por parte de Donald Trump. O que nos trai foi continuarmos em negação mesmo quando, bem antes de Trump, os EUA mudaram o centro estratégico do mundo do Atlântico para o Pacífico. O que nos trai foi praticarmos um credo de que as interdependências seriam os contrafortes que manteriam o status quo – mas a interdependência com a Rússia afinal nada garantiu e a interdependência com os EUA afinal não existe, porque as dependências são desequilibradas a nosso desfavor.
As ameaças poderão ser existenciais: depois do estertor da NATO, a própria União Europeia será posta em causa a partir de dentro. Surgirá a altura de mais coesão ou de mais cisão. E mais coesão rapidamente relançará o ‘debate proibido’, o do federalismo.
Está na altura de rever a União Europeia, não de a matar. Está na altura de reforçarmos a nossa identidade europeísta, com menos conceptualização e mais ação, até porque Trump tem pressa, a pressa de quem tem eleições intercalares em novembro. A diplomacia tem assente num engano, a de que basta bajular um narcísico para o aplacar, o que tem fracassado. E tem adiado qualquer cenário de escalada de conflito, aliás pelas mesmas razões, mas tal revela mais medo do que frieza. É preciso começar a retaliar. Economicamente. Nos acordos comerciais ou nos instrumentos de coerção. Mesmo sabendo que a dor se sente dos dois lados do oceano. Com Trump, a hesitação significa tibieza. E é preciso fortificar, política e economicamente. E industrialmente.
É difícil não cobrar as consequências desta longa letargia aos líderes europeus, mas a opção também é das empresas, que adoram culpar a burocracia pelas suas próprias anemias, e também será dos eleitores, que escolherão projetos políticos mais ou menos europeus ou mais ou menos nacionalistas. Não será fácil. Mas será inevitável. De que lado está? E o que está disposto a sofrer por isso?