quinta-feira, 16 abr. 2026

Cada um por si

O grande projeto de paz que foi a CEE conseguiu criar a massa de uma moeda única mas não a argamassa política ou económica de um espaço comum.

Vivemos sob ameaça.

A ameaça individual de lidar com o aumento súbito do custo de vida. A ameaça nacional de uma crise económica acelerada pela guerra no Irão.

A ameaça europeia de Putin sair da guerra na Europa ocupando território da Ucrânia e preparando uma outra aventura invasiva ou mesmo invasora.

A ameaça de uma crise financeira por excesso de endividamento de Estados europeus que já cobram impostos altos e se frustram na capacidade política e social de reformar o que lhes traz mais despesa.

A ameaça global de um líder dos Estados Unidos da América que vê o mundo a seus pés e com os pés trata quem não lhe presta vassalagem.

A lista das crises podia estender-se e ocupar toda esta coluna. Mas fiquemo-nos por esta última: a da alteração da ordem internacional. Parece uma frase pomposa sobre uma certa vida abstrata. Mas é uma sentença de morte do mundo tal como o conhecemos. Preparemo-nos. Em vez de deitar mãos à cabeça com as palavras de rutura de Trump, deitar as mãos ao trabalho para construir um novo espaço político e económico.

Mesmo que Donald Trump não execute as suas ameaças de saída da NATO, mesmo que perca as eleições intercalares de novembro, mesmo que seja substituído por um Presidente europeísta quando acabar o mandato daqui a três anos, a relação entre a Europa e os Estados Unidos está irremediavelmente ferida. O jornalista Rolando Santos explica-o fundadamente num episódio desta semana do podcast Fúria Épica. A relação de aliados já não é retomável quando lhe sobrevém a desconfiança – e a desconfiança é hoje recíproca.

A Europa irá ficar por sua conta, mas é dependente de energia, é dependente militarmente, está sem liderança tecnológica, sem pujança industrial, sem força enquanto bloco político – e tem como vizinho Vladimir Putin armado até aos dentes, de petróleo e gás natural.

Podemos queixar-nos. Os líderes nacionais ensimesmaram-se num passado imponente, os líderes europeus traíram-se num futuro impotente. Estamos débeis e vulneráveis. O grande projeto de paz que foi a CEE conseguiu criar a massa de uma moeda única mas não a argamassa política ou económica de um espaço comum. Não é possível continuarmos como estamos: ou há mais Europa, o que normalmente significa empreender formas mais ou menos declaradas de federalismo; ou há menos Europa, e começamos a ter posicionamentos multilaterais dentro da própria União. Sem os Estados Unidos a bordo nem a bombordo, é mais difícil unimo-nos. Os Estados Unidos não serão nem o inimigo comum que nos mobilizaria, nem o amigo comum que nos concede, e nisso impõe, a nossa condição no mundo.

Neste cabaz de desventuras, Portugal faz por não ser notado. É uma habilidade da política externa, permitida aos que não decidem nem querem decidir, bastando-se a influenciar. Isso é possível enquanto EUA, União Europeia e Reino Unido estiverem alinhados. Deixando de estar, será preciso tomar parte e partido. Lá chegaremos.

Aqui não abunda o otimismo, como se lê. Que aqui more e morra o erro. Que a Páscoa nos inspire. E inspire aqueles que, tendo nas mãos as armas de guerra, prefiram trilhar o caminho da paz.