Cabeças quentes em economias frias

Estamos pendentes das decisões de outros e dependentes das matérias-primas que não temos. Pela segunda vez em cinco anos, as economias europeias são varridas por um aumento de preços do petróleo e do gás natural.

Menos crescimento económico, mais inflação. São as previsões oficiais da Comissão Europeia e são as perceções individuais que todos temos. O que talvez não tenhamos ainda concebido é que a recuperação será sempre lenta.

Mesmo que a guerra no Irão termine em breve – ou mesmo que o Estreito de Ormuz deixe de ser usado como refém de guerra pelo Irão, e seja aberto à navegação aberta –, os preços internacionais das matérias-primas que em parte por ali passam não descerão rapidamente para os níveis anteriores à guerra. O mundo que se tinha habituado a trabalhar com petróleo à volta dos 60 a 70 dólares por barril a – e que o compra agora por 100 a 110 dólares –, viverá num futuro pós-guerra pagando talvez entre os 80 e os 90 dólares. São estas também as previsões da Comissão Europeia – cheias de asteriscos, em função – sobretudo do tempo que tarde até ao ‘resgate’ da circulação marítima no Médio Oriente.

Estamos pendentes das decisões de outros e dependentes das matérias-primas que não temos. Pela segunda vez em cinco anos, as economias europeias são varridas por um aumento de preços do petróleo e do gás natural. Neste momento, a questão não é sequer apenas o aumento dos custos de compra, mas da própria disponibilidade de produto para comprar. É o risco de escassez. 

Tudo isto constrange a atividade económica europeia: as empresas estão a pagar custos mais elevados de energia e financeiros, lucram menos e retraem ou suspendem investimentos. A economia europeia cresce então à custa de quê: do mesmo motor de antes, o consumo. Acontece que também o consumo se aperta: o consumo dos turistas estrangeiros que visitam a Europa, porque lidam em geral com fenómenos inflacionistas semelhantes; e o consumo dos próprios europeus, que pagam mais pelos combustíveis, pelos produtos alimentares e pelos juros das suas dívidas.

Não estamos em cenário de recessão, mas de estagflação: baixos crescimentos com inflação relativamente alta – nos 3% ou um pouco acima disso. 

Inflação nos 3% significa taxas de juro próximas disso. 

Mais um ponto percentual num crédito à habitação em que se deva 250 mil euros são mais 200 euros por mês – é um subsídio de alimentação a menos. 

Mais um ponto percentual num financiamento de dez milhões para uma empresa investir são menos cem mil euros para ela contratar ou pagar salários.

Mais um ponto percentual em 25 mil milhões colocados pelo IGCP num ano são mais 25 milhões de euros de impostos por ano para pagar juros de dívida pública. 

Todas estas contas comprovam os impactos em economias abertas de acontecimentos que elas não podem controlar. Mas colocam também de novo uma velha questão: vai a Europa dar passos em frente na sua afirmação como bloco político e económico? Ou, pelo contrário, vão os países virar-se para dentro, para as suas próprias fragilidades económicas e pressões políticas nacionalistas, deixando a União Europeia em estado de cada um por si? Com o mapa eleitoral que temos pela frente na Europa, a resposta não é óbvia. Nem fácil. Nem certa.