domingo, 18 jan. 2026

Ainda o ano é uma criança

O nosso estado de choque com Trump é também um estado de negação sobre a Europa e o seu declínio

Sexta feira, 2 de janeiro. Depois de falar com vários editores da CNN, preparei um trabalho sobre perguntas e riscos para 2026, nas frentes interna e externa. A guerra na Ucrânia acaba este ano? Que desenvolvimentos em Gaza e Cisjordânia? Há um conflito no Irão? E em que países de África? Estávamos nisto e, claro, a Venezuela já estava no mapa dos riscos. Mas estava longe de ser provável o que no dia seguinte se tornaria evidente.

Sábado, 3 de janeiro. Os EUA capturam Nicolás Maduro e a mulher.

Este breve relato, verídico, serve para frisar três coisas: que não, não se estava mesmo a ver que isto ia acontecer; que, ao terceiro dia, 2026 já dava uma guinada brusca em relação aos relatórios prospetivos publicados no final de 2025; e que muito possivelmente vamos acabar este ano a ter conversas que nunca pensámos ter. Sobre territórios, ordens internacionais, forças política, económica, militar. Ou seja, aquilo que a União Europeia não tem – nem tem tempo para ter.

O que se está a desenhar é demasiado rápido e demasiado transgressor para que a Europa consiga reposicionar-se. Não há tempo para ganhar autonomia militar nem recuperar autonomia energética. Não há empresas para intrometer entre a liderança tecnológica americana e a emergência tecnológica chinesa.

Cedo perguntaremos como pôde isto ter acontecido, um continente com um passado tão mortífero abdicar alegremente da sua autonomia estratégia, assim entregando o seu futuro. Cedo perguntaremos quem foi responsável pela dependência voluntária face aos Estados Unidos.

Começou entretanto um triste espetáculo de declarações políticas violentas feitas por políticos declaradamente impotentes. Essa espécie de ‘não passarão’ entoada por passarinhos é penosa, se não humilhante. A União Europeia é um projeto político que ainda não passou a fase da construção económica, viu um membro amputado pelo Brexit e as costas atacadas pela Rússia, vê a indústria automóvel em declínio a favor a China e a energia a rarear, quando olha para fora não sabe onde vai ficar e quando olha para dentro desconhece quem vai ser. Se o Reino Unido já voltou a ser uma ilha, a França lida com uma dívida pública galopante a um ano de eleições presidenciais, a Alemanha vira-se para o risco de desmantelamento do seu aparelho industrial, a Espanha prorroga a indefinição política e a Itália dá voltas ao mundo das suas próprias impossibilidades.

Se as coisas endurecerem, e ficarmos mesmo entalados entre os planos já ativos de Trump e os planos ainda passivos de Xi, de nada servirá entrarmos em estado de choque com os desaforos de qualquer deles. Nessa altura, sob estas ameaças geopolíticas, este declínio económico, esta autodeclarada insustentabilidade dos modelos sociais (quando não é o modelo social pesado que arruína a economia, mas a economia frágil que não suporta o modelo social), com este fim do multilateralismo e emergência de cerrar fileiras e encerrar fronteiras, chegaremos à questão vital: a União Europeia aguenta como projeto político?

A 2 de janeiro, a pergunta já era possível. A 3 de janeiro, a resposta ficou mais difícil. Daqui a nada, todos os que olham para fora irão virar-se para dentro. E ainda o ano é uma criança.