Os mais distraídos que nos últimos dias tenham perdido parte do seu tempo a seguir as notícias nos vários canais televisivos e, principalmente, a ouvir os habituais comentadeiros e politiqueiros que por lá se passeiam, talvez tenham ficado com a impressão de que a Hungria virou à esquerda e que as forças mais progressistas foram as grandes vencedoras do escrutínio do passado domingo.
Pois bem, estão redondamente enganados!
Muito pelo contrário, a Hungria virou por completo à direita, tendo fechado as portas, a sete chaves, à esquerda, aos liberais e aos verdes, que foram varridos do parlamento. Nem um único deputado para aquelas formações partidárias, que marcaram presença no anterior hemiciclo!
Os húngaros decidiram, livremente, que somente três partidos terão representação parlamentar, sendo que se situam todos no espaço da direita conservadora, soberanista e cristã.
Caso único na Europa, em que numa democracia pluralista o poder legislativo está entregue, em exclusivo, a quem repudia a aliança liberal/socialista que tem governado quase todos os seus países no último século.
Naturalmente que esta evidência foi totalmente ignorada pela generalidade da imprensa, a qual, igualmente, omitiu que o terceiro partido mais votado, o único com assento parlamentar para além dos dois principais, o Movimento Nossa Pátria, é nacionalista conservador, eurocéptico e anti-globalização, sendo rotulado, pelos habituais opinadores, de populista de direita ou mesmo de extrema-direita.
A derrota do Fidesz de Viktor Orbán veio provar que, ao contrário da mensagem que Bruxelas se esforçou em passar, e constantemente secundada por toda a imprensa internacional e por políticos de quase todos os quadrantes, a Hungria não estava refém de um regime autoritário, bem pelo contrário, vive uma democracia plena e na qual as instituições dos vários poderes constitucionais se regem pelo princípio do estado de direito democrático.
As eleições foram livres e realizadas sem qualquer tipo de pressão ou de intimidação do eleitorado, tendo Orbán aceitado prontamente o seu insucesso eleitoral e prontificado-se a garantir uma transição pacífica e ordeira.
Precisamente o oposto do que teria ocorrido em qualquer regime ditatorial, no qual a oposição estaria reduzida a uma mero papel de fachada e incapacitada de derrubar o poder instituído.
Nos dias que antecederam o acto eleitoral, disseminou-se a ideia de que o sistema eleitoral fora concebido para favorecer o partido do governo, argumento que se provou falso, sendo que a verdade é a de que se beneficia a formação política mais votada, independentemente de se situar, ou não, no arco da governação.
Foi graças a este mecanismo, pensado em facilitar maiorias mais significativas, que o Tisza de Péter Magyar logrou obter dois terços dos lugares parlamentares, quando o número de votantes não ultrapassou os 53%.
Ou seja, foi a oposição, e não o governo, quem lucrou com este modelo de distribuição de deputados.
Bruxelas respirou de alívio logo que ficou evidente a vitória de Magyar, mas rapidamente terá que despertar do sonho que imaginou real e enfrentar uma realidade bem distinta daquela em que teima em acreditar.
O Tisza resultou de uma dissidência interna do Fidesz, protagonizada por Magyar, até então visto como o delfim de Orbán, sendo que não foram divergências doutrinárias que estiveram na base dessa fractura, mas sim questões pessoais relacionadas com o exercício do poder e com acusações de corrupção.
A linha política destes dois homens é praticamente a mesma, sendo que ambos estão de acordo quanto ao tipo de relacionamento com a União Europeia, podendo apenas divergirem sobre a estratégia a levar a cabo.
Se dúvidas houvesse, ficaram, certamente, cabalmente esclarecidas logo após as primeiras declarações do futuro primeiro-ministro depois da sua vitória eleitoral.
Magyar defendeu uma Europa de Estados soberanos, em oposição à via federalista proclamada pela UE; criticou o excesso de regulação de Bruxelas; condenou a resposta europeia à crise migratória; defendeu mais pragmatismo nas relações com a Rússia, sugerindo mesmo, assim que finda a guerra, o levantamento das sanções impostas àquele país; deixou bem claro de que a Hungria vai continuar a depender da Rússia no que respeita aos bens energéticos, continuando a adquirir petróleo russo; opões-se a uma aceleração do processo de adesão da Ucrânia à UE; e mantém a recusa do seu país em participar no empréstimo europeu à Ucrânia.
Em resumo, nas principais linhas mestre está em completa consonância com o seu opositor derrotado nas urnas.
Terá, naturalmente, uma abordagem mais simpática para com as instituições europeias, mas tal não passará de uma estratégia que visa desbloquear os milhares de milhões de euros que a UE, abusivamente, se tem recusado a transferir para os cofres húngaros.
A esquerda e os liberais festejaram, efusivamente, o desaire de Orbán, mas fingem ignorar que Magyar é bem mais intransigente do que o seu rival em duas das bandeiras que lhes são mais queridas, a da imigração e a da ideologia do género.
O partido vencedor preconiza medidas bem mais drásticas no combate à imigração ilegal, sendo favorável è remigração, e privilegia o papel da família, em detrimento das políticas identitárias que o socialismo e o liberalismo procuram impor.
É bastante provável que muito em breve todos quantos vociferavam contra Orbán, acusando-o de ser um ditador, inimigo da democracia e da liberdade e agente ao serviço dos russos, transfiram para o novo poder de Budapeste os mesmos adjectivos com que qualificaram aquele que o antecedeu.
É só uma questão de tempo!