Cotrim de Figueiredo teve o discernimento de compreender que para alcançar a presidência, sonho em que foi acreditando com o passar do tempo, teria de entrar dentro do eleitorado da chamada direita.
Para esse efeito, ajustou o discurso naquela direcção, ciente de que as políticas libertárias, nas quais se embrenhara num passado recente, tornariam impossível esse objectivo, apontando então baterias para o eleitorado da AD, mais conservador e pouco receptivo a muitas das bandeiras desfraldadas pelos liberais, como a ideologia do género e as causas fracturantes da sociedade.
Tal como Mário Soares pusera o socialismo na gaveta assim que se viu na contingência de chefiar um governo, também Cotrim esqueceu rapidamente o liberalismo, estratégia que visou agradar aos eleitores que desta corrente desconfiam e de cujo voto está dependente.
Percorreu, deste modo, um caminho oposto ao de Gouveia e Melo, o qual acreditou, erradamente, que teria mais hipóteses de chegar a Belém à boleia de quem pensa à esquerda, esforçando-se, para esse efeito, em renegar a área política da qual os seus potenciais votantes pensavam ser originário.
O resultado está à vista: Cotrim começou gradualmente a subir nas sondagens, enquanto que em sentido inverso o Almirante das vacinas caiu a pique.
Um, teve a inteligência de compreender que o País virou à direita, tendo dois terços do eleitorado direccionado o seu voto para aquela área política, enquanto que o outro não prestou atenção a esse fenómeno, por ignorância ou por mal aconselhado, hipotecando, por esse erro, as suas aspirações a uma eventual vitória nas eleições prestes a decorrerem.
Até Seguro soube ler esta nova realidade, pelo que também ele fez um esforço considerável para se afastar das suas crenças de base, procurando fazer-nos crer de que nunca abraçou os ideais socialistas, e, graças a essa artimanha, logrou penetrar no eleitorado que se afastou da esquerda, correndo agora sérios riscos de vir a ser o próximo supremo magistrado da Nação, milagre a que não será alheia a desunião e desorganização dos partidos da direita parlamentar, os quais se têm entretido a dar tiros nos pés.
Mas Cotrim, num ápice, parece ter deitado tudo a perder, depois de admitir que numa segunda volta de que esteja arredado não descarta o apoio a nenhum dos outros candidatos, incluindo André Ventura, reconhecendo neste uma moderação distinta daquela com que se evidenciara até agora.
A máscara não lhe caiu por causa do momento de sinceridade em que se deixou envolver, mas sim pelo arrependimento assumido logo que se ouviram as primeiras ondas de choque por ter admitido o seu voto em alguém em quem o pensamento dominante insiste em catalogar como extremista.
Na verdade, uma eventual vitória de Ventura não representa um perigo maior para a democracia do que a de António Filipe, um comunista saudoso de uma das mais mortíferas ditaduras com que o planeta foi brindado e que tem como modelos, nos quais se inspira, Lenine e Estaline, dois dos piores facínoras que o mundo já conheceu.
Nem tão pouco a Catarina Martins, a qual, por mais que pinte o cabelo de louro, não consegue disfarçar o seu radicalismo militante e que tem como um dos principais cavalos de batalha a saída de Portugal da OTAN, não escondendo, igualmente, a sua admiração por Trotsky, outro assassino que a História regista como um dos mais tenebrosos que nos foi dado a conhecer.
Nem mesmo Marques Mendes, cujo hipotético triunfo poderá tornar o Estado refém das suas duvidosas e obscuras negociatas.
Cotrim, ao dar o dito por não dito, provou estar desapossado da coluna vertebral que se exige a quem quer ser o primeiro dos portugueses, por ceder facilmente às pressões das minorias que se apoderaram dos principais centros de decisão e dos diversos canais de informação.
Mas pior foi a explicação que rebuscou para se justificar perante a opinião publicada, a de que foi um momento mau e que não sabe o que lhe passou pela cabeça por ter posto a hipótese de poder vir a votar em Ventura.
Imagine-se se amanhã, sentado no principal cadeirão de Belém e perante cenários de extrema importância, Cotrim se equivoca na tomada de deliberações, argumento posteriormente desconhecer o que lhe passou pela cabeça!
A respeito das declarações proferidas sobre a moderação de Ventura, respondeu que estava a ser irónico! Uma ironia de que ninguém se apercebeu, incluindo o próprio, que somente algumas horas depois disso tomou consciência!
Uma vez instalado em Belém e após se atolar em erros crassos, certamente que se poderá desculpar com a ironia para justificar o seu comportamento.
Cotrim provou não ser sério, e a seriedade é a primeira das virtudes que se requer a quem aspira à chefia do Estado!