A manipulação das sondagens

Mas o polvo socialista não dorme em serviço, tendo manobrado, na sombra, para que o desfecho eleitoral fosse bem diferente daquele que seria previsível

Somente por ingenuidade ou por má-fé é que alguém poderá negar que a recente primeira volta das eleições presidenciais foi grosseiramente manipulada, conduzindo a que um candidato dado à partida como derrotado tenha chegado ao fim como o mais votado.

Na verdade, todos os estudos de opinião indicavam António José Seguro como não tendo qualquer hipótese de chegar à segunda volta, havendo, então, uma estimativa de que não ultrapassaria os dez por cento, atribuindo-se todo o favoritismo a Gouveia e Melo e Marques Mendes.

A discussão da presidência seria entre estes dois, sendo que apenas dois cenários estavam em cima da mesa, a de uma segunda volta entre aqueles ou, com grande probabilidade, entre um deles e André Ventura.

Também com Cotrim de Figueiredo as expectativas eram muito baixas, bastante longe da possibilidade de obter um resultado positivo.

Mas o polvo socialista não dorme em serviço, tendo manobrado, na sombra, para que o desfecho eleitoral fosse bem diferente daquele que seria previsível.

Seguro não tinha o apoio de grande parte do PS, partido que, aliás, só se colocou oficialmente ao seu lado já depois do início da campanha eleitoral, sendo quase certo de que uma percentagem muito elevada dos socialistas votaria em Gouveia e Melo e outros apostariam mesmo nos candidatos da extrema-esquerda.

Montou-se então um engenhoso ardil, com o recurso da TVI a uma empresa de sondagens dirigida por uma destacada socialista, que fora inclusive secretária de estado num dos governos de Costa, passando aquele canal televisivo a apresentar diariamente aquilo a que chamou “tracking poll”, a qual, na verdade, se trata de uma falsa sondagem, porque supostamente baseada num trabalho de campo, mas em que o universo dos entrevistados é francamente diminuto.

Logo nos primeiros dias da campanha foi-nos vendida uma reviravolta, a de que Seguro começou a subir repentinamente naquela espécie de sondagem, enquanto que Gouveia e Melo, em sentido inverso, caía a pique.

A intenção não deixava margem para dúvidas: tornava-se urgente convencer o eleitorado socialista de que o Almirante das vacinas, que por via dessa sua faceta se apresenta com uma grande implantação junto dos mais velhos, principal base de apoio do PS, já não tinha qualquer hipótese de disputar a presidência, pelo que um voto nele seria um voto perdido, enquanto que o voto em Seguro se constituía no único garante de uma possível vitória da esquerda.

Devidamente manipulado, o povo socialista foi tomando consciência da necessidade de mudar o seu sentido de voto, direccionando-o, a partir de determinada altura, para um candidato que, apesar de se mover no mesmo espaço político, não lhe inspirava confiança alguma.

Mas havia ainda um problema, chamado Marques Mendes.

Numa segunda volta, o candidato do governo venceria qualquer um dos outros, nomeadamente Seguro, pelo que se tornava imperativa a sua queda nas sondagens, por forma a influenciar uma grande parte dos seus eventuais votantes a repensar a sua maneira de votar.

Então, e como que por magia, Cotrim dispara na falsa sondagem e Marques Mendes, de um momento para o outro, é recambiado para a última posição dos cinco aspirantes a presidente com hipotéticas possibilidades de passarem a uma segunda volta.

A repentina ascensão de Cotrim, catapultando-o mesmo para uma posição superior à de Ventura e com tendência a discutir o acesso a Belém com Seguro, teve como imediata consequência que o eleitorado próximo da AD se tenha convencido de que o candidato liberal seria o único com reais chances de vencer o socialista, razão pela qual, progressivamente, foi aderindo à sua candidatura, em detrimento da do conhecido comentador televisivo.

No entanto, um novo problema se abateu sobre as cabeças dos arquitectos da manobra socialista, deixando-os receosos da sua estratégia cair por terra. A popularidade de Cotrim estava, de facto, em alta e com uma grande margem de progressão, tonando-se expectável lograr uma presença na segunda volta, eventualmente destronando Ventura, o único candidato que Seguro poderia vencer no duelo final.

Para contrariar essa meteórica simpatia junto de quem não pensa à esquerda, mas que foge do líder do Chega como o diabo foge da Cruz, surge, do nada, uma acusação de assédio sexual imputada ao antigo dirigente da Iniciativa Liberal, uma historieta ocorrida há quatro anos, mas que, cirurgicamente, apenas a escassos dias das eleições é que ganha vida junto do grande público.

Cotrim, impreparado para lidar com golpes desta natureza, não soube estar à altura de se desenvencilhar com mestria da trama em que se viu atolado, vendo o seu crescimento eleitoral estagnar de um dia para o outro, impossibilitando-o, assim, de aspirar a outros voos mais altos.

A panelinha estava feita. Seguro estava seguro numa segunda volta e tendo como opositor André Ventura, o único cuja taxa de rejeição é bastante superior à de empatia, fruto de toda a campanha de destruição de carácter de que é vítima desde que veio a terreiro pôr em causa os interesses instalados.

Tratou-se, na verdade, de uma estratégia engendrada no Largo do Rato, prontamente secundada por toda a esquerda extremista, a de rotular Ventura, sem interrupções, de ser um perigoso fascista, racista, xenófobo, nazi, entre outros mimos, e cuja eventual conquista da presidência terá como destino irreversível o fim do estado de direito democrático, levando a um ciclo de autoritarismo em todo semelhante ao verificado durante o Estado Novo.

Um emaranhado de políticos, jornalistas, artistas, sindicalistas e outros actores da sociedade civil, tornaram-se nos porta-estandartes destas sucessivas investidas contra o líder do Chega, espalhando o medo e a confusão junto de um eleitorado que não se revê nas políticas de esquerda e que quer preservar a todo o custo a sua liberdade.

E é com base nestas duas mentiras, a da manipulação das sondagens e a dos rótulos impostos a Ventura, que a esquerda, com o beneplácito da direita fofinha, se prepara para reconquistar a chefia do Estado, patamar de que fora arredada há duas décadas, tendo Seguro o tapete vermelho estendido até Belém.