sexta-feira, 07 ago. 2026

Consumir, Consumir, Consumir. 

Crónica de um mundo que deixou de ser feito para durar

Temos cá em casa, estacionadas lado a lado, duas medidas do tempo. De um lado, uma BMW E34 de 1992, uma carrinha alemã de proporções sóbrias e alma inflexível, desenhada numa época em que os engenheiros ainda tinham mais poder de decisão do que os departamentos financeiros. Fecho a porta e ouço um estalido seco, pesado, quase solene. Do outro lado, um citadino francês com os seus treze anos, prático, económico, cumpridor de todas as normas europeias de emissões e segurança que a sua antecessora nem sonhava, mas oco por dentro, plástico até ao osso e a começar a denunciar-se em pequenas avarias que, sozinhas, não significam nada, mas que, em conjunto, contam uma história muito clara.

Não é um golpe de sorte nem um acidente de fabrico. É o retrato, em exemplo automóvel, de algo bem mais vasto: a decadência deliberada, a obsolescência programada, sistemática e lucrativa daquilo que compramos, vivemos, usamos e, cada vez mais depressa, deitamos fora.

Também não é nostalgia, ou pelo menos, não é só isso, esse vício fácil de confundir saudade da juventude com o declínio real do mundo. O “no meu tempo é que era bom” é hoje um facto observável, replicável e mensurável em quase tudo o que nos rodeia. A qualidade e a longevidade deixaram de ser objetivos de engenharia para se tornarem variáveis de negócio, ajustáveis consoante convém ao trimestre fiscal seguinte. Os engenheiros (antiga aristocracia do saber fazer) já não são os protagonistas da criação de um produto. São, quando muito, consultados depois de o departamento financeiro ter decidido quanto tempo esse produto tem autorização para durar.

Se procurarmos a origem desta lógica, encontramos um exemplo preciso e um conluio real, embora pareça teoria da conspiração tirada de um Reddit obscuro. Em dezembro de 1924, em Genebra, reuniram-se os maiores fabricantes de lâmpadas do mundo e fundaram uma sociedade a que chamaram Phoebus, em homenagem a Apolo, o deus grego da luz. O objetivo era simples, cínico e nada divino: as lâmpadas incandescentes da altura duravam, em média, 2500 horas, o que era péssimo para o negócio. Decidiram, em conjunto, baixar essa duração para exatamente 1000 horas, criando um sistema de multas para qualquer fabricante cujas lâmpadas insistissem em durar mais do que o combinado. Ou seja: não faltava engenho para fazer melhor; sobrava a determinação de fazer pior, e de o fazer com precisão milimétrica.

A obsolescência programada não nasce da incompetência técnica; nasce da competência técnica e tecnológica colocada ao serviço de um objetivo espúrio.

Pergunto ao caro leitor: gosta de ficção científica do passado? Prometeram-nos, ao longo do século que passou, que por esta altura andaríamos de carros voadores. Prometeram-nos o fim do trabalho penoso, o lazer generalizado, uma abundância partilhada por todos graças ao progresso tecnológico. Chegámos a meio da década de vinte e, em troca dessa quimera, temos frigoríficos que exigem uma aplicação no telemóvel só para nos avisar que o leite acabou, e que aproveitam à socapa para registar os nossos hábitos alimentares e vendê-los a quem estiver disposto a pagar por eles. Temos o tão aguardado GTA VI, cuja edição física é uma caixa de plástico com um código de download lá dentro. Sem disco nenhum. Compra-se a promessa de uma cópia, já não a cópia em si. Aluga-se uma experiência e não se adquire, em bom rigor, nada. Não é ficção distópica escrita para efeito dramático, mas sim a política comercial declarada de uma das maiores editoras do mundo e um momento pivotal que pautará o mercado do entretenimento daqui para a frente.

E aquilo que não se consegue converter em ausência total de posse, converte-se em mensalidade. O que outrora se comprava uma vez e se usava para sempre transformou-se num aluguer perpétuo. Pagamos hoje, todos os meses, por aquilo que os nossos pais compravam uma única vez e guardavam numa gaveta. E pagamos mais, no total, por essa fragmentação, ainda que a sensação subjetiva seja a de estarmos a poupar. É contabilidade comportamental (mais bem estudada que o cancro, que também convém ir tratando em vez de curar). porque nos dói menos gastar vinte euros por mês para sempre do que duzentos euros de uma só vez, mesmo que o resultado aritmético seja pior. Um cliente que compra e desaparece é um problema de tesouraria; um cliente que subscreve é uma renda vitalícia, garantida e previsível, exatamente o que qualquer relatório trimestral deseja ver.

Há uma imagem antiga, (discutível do ponto de vista biológico, mas certeira do ponto de vista moral) costumeiramente usada para descrever este tipo de deterioração lenta: a do sapo colocado diretamente em água a ferver, que salta cá para fora de imediato, e a do mesmo sapo colocado em água fria que depois se aquece devagar, grau a grau, e que, entorpecido pelo conforto gradual, não dá por nada até ser tarde de mais. É essa a nossa condição coletiva. Não fomos mergulhados de repente num mundo de plástico frágil e assinaturas sem fim. Fomos, sim, ao longo de décadas, aquecidos devagarinho, até aceitarmos como perfeitamente normal aquilo que, para quem nasceu antes de nós, teria parecido escandaloso.

Sei bem o que me vão dizer, e têm parcialmente razão: nem todos os carros dos anos noventa eram bons. Há um enviesamento de sobrevivência nisto tudo, e seria desonesto fingir que não existe. Para ser inteiramente justo, convém fazer uma cedência à realidade: o citadino francês é diabolicamente competente, bem-parecido, gasta tostões e cumpre a sua função diária sem pestanejar. Já a  velhota germânica, sejamos francos, está uma autêntica ruína ambulante. Tem meio milhão de quilómetros no lombo e carrega o peso de tantas histórias que levariam um psicólogo ao burnout.

Mas o ponto não é o desgaste acumulado por décadas de estrada; é que, no dia zero, acabadas de sair do stand, as duas viaturas partiam de patamares de engenharia, objetivos e exigência completamente diferentes. Quando abro a porta da minha velhota, sinto um peso deliberado, um encaixe que não deixa margem para dúvidas. Quando fecho a porta do citadino francês, ouço um som oco, honesto na sua modéstia, mas sem qualquer pretensão de eternidade. Estou a comparar dois produtos, separados por mais de vinte anos, e a constatar que o teto de qualidade que era possível atingir desceu, mesmo quando a tecnologia disponível só subiu.

Convém, já agora, desfazer outro mito confortável dos arautos do temível capital: o de que é a concorrência livre, sozinha e por si só, que nos traz o progresso. Em parte, sim. Mas grande parte daquilo que hoje consideramos adquirido (cintos de segurança, crash-tests obrigatórios, normas de emissões, direitos básicos do consumidor) não nasceu de uma concorrência espontânea entre empresas ansiosas por nos agradar. Nasceu de regulação, muitas vezes imposta contra a vontade explícita da própria indústria, à custa de décadas de pressão pública. O que nasceu do mercado livre foi a lâmpada da sua sala que não para de trocar. Deixadas inteiramente à sua sorte, as empresas não competem primariamente pela durabilidade ou pelo esmero brio de fabrico. Competem por aquilo que é mais barato de produzir e ainda assim vendável, o que raramente, por infeliz coincidência, é o mesmo que é mais duradouro.

Mas porquê agora, e com esta intensidade crescente? A resposta mais honesta não é apenas moral, é estrutural. As economias modernas foram erguidas sobre o pressuposto de um crescimento perpétuo. A dívida exige juro, o juro exige que a economia de amanhã seja maior do que a de hoje. Durante muito tempo, esse crescimento veio de tecnologia nova e de mercados por explorar. Mas quando esse crescimento abranda e a fruta mais fácil de colher já foi colhida, o sistema não pode simplesmente parar para respirar. Tem de continuar a crescer, nem que seja por artifício (tipo BES). É aqui que entra a extração: já não se cria valor novo suficiente, então extrai-se valor onde ele ainda resiste, dos trabalhadores, dos consumidores e dos próprios produtos, cuja durabilidade passa a ser encarada como um custo de oportunidade, e não como uma virtude. Isto (evidentemente) não é somar, é subtrair.

Quando já não sobra margem no produto físico, a atenção da engenharia financeira volta-se para outro lado: para os nossos hábitos, os nossos dados, a nossa localização, o nosso sono e os nossos sonhos. Os produtos vigiam-nos silenciosamente e são trancados por software para impedir que o próprio dono o possa parar (ou os possa reparar). A reparação, que já foi um serviço de proximidade, transformou-se numa nova fonte de receita cativa, controlada de perto por quem fabricou o produto original. Em paralelo, os mercados consolidam-se a um ritmo notável. Cada vez menos empresas controlam cada vez mais marcas, mantendo intacta a ilusão de escolha nas prateleiras, enquanto dois ou três grupos económicos decidem praticamente tudo, inclusive o que eu gosto, antes de eu gostar. 

E quando julgávamos que a lógica da subscrição e da extração tinha atingido o limite, a ficção antiga lá acertou noutra coisa: chegámos, inevitavelmente, à inteligência artificial, o mais recente e poderoso acelerador deste processo. Não creio que a tecnologia em si seja inimiga, longe disso. É um dos saltos mais notáveis da capacidade humana e, nas mãos certas, quase um superpoder. O problema nunca foi a ferramenta, foi sempre quem a empunha e para quê! Nas mãos de quem já tinha percebido que extrair vale mais do que criar, a inteligência artificial não está a ser usada para fazer o trabalho que ninguém quer fazer. Está a ser usada para substituir o trabalho que as pessoas efetivamente gostam de fazer, embolsando a diferença pelo caminho. É o serviço ao cliente entregue a algoritmos e empresas inteiras a congelar contratações para os lugares que esperam automatizar. É a industrialização, a uma velocidade sem precedentes, daquilo que já vínhamos a normalizar aos poucos: a aparência de abundância sobre um vazio real.

Talvez seja precisamente aqui que o assunto deixa de ser sobre carros e passa a ser sobre nós. Uma sociedade treinada, geração após geração, a aceitar cada vez menos por cada vez mais, acaba por interiorizar essa lógica fora das montras. Habituamo-nos ao descartável não só nos objetos, mas nas relações, na paciência e no cuidado que pomos naquilo que fazemos com as próprias mãos.

A música portuguesa já intuía isto há mais de duas décadas. Os Repórter Estrábico, no álbum Mouse Music, de 1999, reduziram a família inteira (mãe, pai e bebé) a uma sucessão de verbos no imperativo, um pequeno adestramento doméstico disfarçado de canção infantil, para no final martelar a única palavra que realmente interessava a quem vendia. Não é coincidência nenhuma que essa crítica continue tão atual passadas quase três décadas. O sistema não mudou de natureza; ficou apenas mais eficiente a disfarçar-se.

Continuamos, escravos voluntários da nossa condição coletiva, obedientes ao mesmo mandamento não escrito: consumir, consumir, consumir.

Volto às viaturas cá de casa: uma tem trinta e quatro anos e promete durar mais trinta, se eu lhe der o mínimo de cuidado que ela exige. A outra tem treze e já negoceia o seu fim através de avarias baratas e peças de plástico fatigado. Não escrevo isto para convencer ninguém a comprar um carro alemão com três décadas, isso seria perder completamente o essencial. Escrevo isto porque escolher cuidar, reparar em vez de substituir, amar em vez de descartar, exigir qualidade e recusar a resignação confortável de que “as coisas são mesmo assim” é talvez a única forma de resistência que nos resta. E sim, cuidar é ecológico e sustentável.

O sapo ainda pode saltar. Só precisa de admitir, primeiro, que a água está, de facto, a ferver.