O território de Azambuja parece hoje mergulhado numa penumbra estratégica, reduzido a uma condição de servidão logística que ignora, de forma quase olímpica, quem ali habita. O concelho transformou-se num território de intervalo, uma mancha cinzenta no mapa onde o dinamismo económico se confunde perigosamente com a simples ocupação do solo por armazéns gigantescos.
Esta realidade sacrifica a qualidade de vida local no altar de uma passividade administrativa que roça a negligência, condenando a região a ser o eterno pátio de serviço da metrópole lisboeta. Por trás da fachada industrial, a pressão imobiliária da Grande Lisboa atinge a comunidade com força bruta, elevando preços de forma especulativa e tratando o concelho como um dormitório conveniente em vez de uma comunidade com direitos plenos.
Existe um abismo entre o custo de vida e a precariedade dos serviços de saúde ou cultura, onde a distância para a capital não se mede em quilómetros, mas em décadas de atraso.
O paradoxo é gritante quando se observa a coexistência entre polos logísticos de referência e projetos de enoturismo premiados, como a Ávinho, que demonstram o enorme potencial da terra.
Não obstante, casos como o da Herdade da Torre Bela surgem como símbolos crus de uma aparente capitulação geral. O maior parque solar de Portugal, apresentado sob o manto da transição energética, representou para muitos um ecocídio de conveniência e um testemunho da submissão do poder local a um capital predatório. A mutilação da paisagem e a instalação de linhas de muito alta tensão sobre populações (como Casais das Boiças) consolidam Azambuja como um corredor elétrico e logístico que aceita todas as externalidades negativas: o ruído, a poluição visual e a degradação das vias; em troca de uma irrelevância fiscal que não traz benefícios palpáveis para o quotidiano das pessoas.
Mas se as estradas estão danificadas por/e entupidas de camiões, esta sensação de marginalização é vivida também com particular dor para quem não possui transporte próprio. O comboio, que deveria ser o cordão umbilical para o progresso, tornou-se o principal símbolo do abandono, marcado por atrasos, supressões e uma humilhação ferroviária diária que o conformismo não consegue mais abafar. Autocarros são escassos, e nem chegam a todo o concelho. De pouco servem as promessas de investimentos milionários no futuro se, no presente, o sistema falha sistematicamente com quem paga bilhete.
Na educação, o cenário é igualmente preocupante, com (poucas) infraestruturas escolares que acusam o peso do tempo enquanto a riqueza que atravessa o concelho em camiões não encontra o caminho para as salas de aula. Esta fratura é ainda mais profunda quando se olha para o alto concelho, onde a essência rural e o potencial para o turismo de natureza são tratados como meros anexos geográficos, mergulhados num isolamento que beira o desrespeito.
Até a cultura e a identidade local, embora fortes, parecem sofrer de uma incapacidade de gerar prosperidade duradoura. A Feira de Maio (tal como o Ávinho e tantas outras festas), sendo um marco identitário indiscutível, acaba por ser uma celebração efémera que deixa atrás de si um vazio económico. É (de facto) incompreensível que um concelho que se afirma turístico sofra de uma falta gritante de unidades hoteleiras, permitindo que o visitante seja apenas um cometa que atravessa as ruas e parte para pernoitar nos municípios vizinhos. Sem capacidade de fixar quem visita a região, a festa torna-se despesa em vez de investimento.
Marcar passo no distrito de Lisboa não é um destino inevitável, mas sim o resultado de escolhas políticas que precisam de uma rutura clara com o cinzentismo atual.
Se nada mudar, Azambuja arrisca-se a tornar-se definitivamente num não-lugar, um entreposto sem rosto e sem alma, onde o progresso é apenas algo que se vê passar, com indiferença, da janela de um comboio (de alta velocidade) que ameaça esquecer-se de ali parar.