Volto a escrever sobre a minha terra, porque territórios há que parecem condenados a repetir a mesma ferida até a paisagem esquecer como era antes de ser sacrificada. Alcoentre é, infelizmente, um desses lugares. Nos últimos anos, viu a Herdade da Torre Bela tornar-se sinónimo de tragédia e de impunidade. A montaria de dezembro de 2020, que abateu centenas de veados, gamos e javalis perante o país inteiro, terminou este verão sem um único julgamento. O Ministério Público arquivou o inquérito ao fim de cinco anos, não por ter concluído que nada de errado aconteceu, mas por não ter reunido indícios suficientes para levar alguém a tribunal. Ninguém foi absolvido, porque ninguém chegou sequer a ser acusado. É essa distinção, entre justiça feita e simples ausência de consequências, que volta a pairar sobre a mesma herdade desde que, em fevereiro, o risco de rutura da Barragem da Retorta obrigou à evacuação de Póvoa de Manique e Carvalhos (uma massa de água cuja real dimensão nem a Câmara nem as entidades responsáveis conheciam ao certo). Some-se a isto o maior parque fotovoltaico do país, erguido sobre grande parte da mesma herdade murada; as linhas de muito alta tensão que atravessam a freguesia e passam sobre habitações; e o traçado da futura linha de alta velocidade, que poderá passar a escassos metros de habitações em Alcoentre e nas Quebradas. Compreende-se, assim, por que motivo esta freguesia já não recebe novidades sobre o seu território com curiosidade, mas com um cansaço que beira a resignação, porque gato escaldado tem medo de água fria.
É nesta paisagem, já tantas vezes maltratada, que aterra agora o mais ambicioso projeto privado da história do concelho: o Azambuja DC, um centro de dados avaliado em mais de dois mil milhões de euros, que o promotor promete traduzir em 200 postos de trabalho diretos e 500 indiretos. É um número que, por si só, justificaria seriedade, tempo e debate público. Foi precisamente isso, tempo e debate, que faltou.
Convém dizer com toda a clareza que não sei se este investimento será a alavanca de desenvolvimento que o concelho espera há décadas ou mais um capítulo na longa lista de externalidades que Azambuja aceita sem nunca colher os benefícios prometidos. Os dois cenários são plausíveis, e seria desonesto fingir uma certeza que ninguém possui.
Do lado positivo, fala-se de um investimento sem paralelo na história do concelho, de emprego qualificado e de receita fiscal de que o município tanto precisa. Do lado das dúvidas (e são muitas), sobressai o consumo médio de água de 95 milhões de litros por ano, um número pesado para uma região que já gere mal o stress hídrico. Somam-se as incertezas sobre a emissão de ruído e calor e os reais impactos na saúde, no bem-estar e no ambiente. A juntar a tudo isto, a instalação está prevista a menos de 200 metros de habitações, sem garantias claras, até hoje, sobre barreiras acústicas, sobre a origem exata dessa água ou sobre contrapartidas concretas para a freguesia.
Nenhuma destas perguntas é acessória. São o cerne de qualquer decisão responsável sobre um investimento desta escala.
O problema, portanto, nunca foi o investimento em si. Foi a forma como o processo correu nas costas de quem devia ser o primeiro a saber (quem foi eleito por quem cá mora, e quem cá mora). Já em janeiro de 2025, aliás, a imprensa noticiava o interesse de gigantes tecnológicos, como a Google, em instalar centros de dados na zona industrial de Aveiras de Cima, no âmbito do projeto Aveiras Eco Valley. Não se trata, ao que tudo indica, do mesmo projeto que hoje se discute em Alcoentre, mas revela que o interesse de multinacionais tecnológicas pelo território de Azambuja não era, de todo, uma novidade para o poder local. Quanto ao Azambuja DC em concreto, a intenção do promotor foi comunicada ao presidente da Câmara e ao chefe da Divisão de Planeamento Urbanístico logo em janeiro de 2026. A 22 de maio, o município foi formalmente envolvido pela AICEP no procedimento de reconhecimento do estatuto de Potencial Interesse Nacional, um estatuto que, importa esclarecer, não atribui qualquer benefício fiscal, mas garante ao promotor acompanhamento prioritário e tramitação administrativa acelerada junto de todas as entidades públicas. Durante mais de dois meses, a maioria PS/CDU da Câmara Municipal de Azambuja acompanhou este processo de perto. Participou, através do vice-presidente e do vereador da CDU, na reunião da Comissão Permanente de Apoio ao Investidor, com direito de voto. Reuniu-se em Câmara pelo menos cinco vezes sem trazer o assunto à mesa e aos restantes edis. Realizou uma Assembleia Municipal, a 24 de junho, sem dirigir uma única palavra sobre este investimento aos deputados municipais, aos presidentes de junta ou aos munícipes. Só na quarta-feira, 22 de julho, cinco dias corridos, ou seja, apenas dois dias úteis, antes da votação, chegaram às mãos dos vereadores da oposição 49 documentos de elevado volume e grau de complexidade técnica. A reunião com o promotor, dois dias depois, deixou por responder todas as perguntas, até as centrais como o tipo de emprego a criar, as medidas de mitigação de ruído e as contrapartidas concretas para o concelho.
Chegado o dia 27 de julho, numa reunião extraordinária onde, por regimento, não há lugar a intervenções fora da própria votação, aprovou-se um parecer desfavorável ao reconhecimento do estatuto PIN (ou seja, a Câmara diz NÃO ao reconhecer o projeto como PIN). Fê-lo com os votos a favor de dois eleitos do PS, do vereador da CDU e, note-se, também da vereadora do Chega, registando-se uma abstenção socialista. Os vereadores do PSD recusam participar na votação e abandonam a sala. Não por recusarem decidir, mas sim por recusarem decidir sem as condições mínimas de tempo, informação e transparência que uma matéria desta dimensão exige. O PSD assim não está contra nem a favor deste investimento. Está contra a forma como o processo foi conduzido por uma maioria que teve meses para o estudar e que atirou, em dois dias úteis os 'calhamaços', impossíveis de analisar em tão pouco tempo, para cima da mesa da oposição.
Não posso deixar de notar, e aqui falo enquanto cidadão que observa o jogo político, que este parecer desfavorável tem todo o aspecto de um seguro político. Se o projeto avançar de qualquer forma, por decisão de instâncias superiores ou por persistência do próprio promotor, a maioria PS/CDU poderá sempre dizer que tentou travá-lo. Se o projeto cair, reclamará o mérito da precaução. É uma posição confortável para quem passou meses a acompanhar o processo em surdina e só decidiu opor-se, publicamente, quando já não havia tempo para mais ninguém participar na decisão.
Ou seja, a ironia é inegável, quem hoje vota contra para lavar as mãos é exatamente quem, em seis meses de silêncio, permitiu que o projeto avançasse pelas costas de todos, sem negociar a localização, sem exigir contrapartidas, sem fazer perguntas e sem pedir resposta a uma única pergunta sobre o futuro de Alcoentre. Este 'NÃO' de última hora é apenas o escudo político de quem permitiu tudo sem defender ninguém.
Um apanágio que, sendo daqui, não pertence só a Azambuja. É retrato fiel de um vício que atravessa muitos municípios portugueses, o de tratar as câmaras como coutadas onde decisões que mudarão a vida de gerações inteiras se cozinham em gabinetes fechados e se despejam, já frias, sobre uma oposição convidada apenas a carimbar. Não sei, hoje, se o Azambuja DC será a âncora de desenvolvimento que o concelho tanto precisa ou mais uma sombra a somar às que já pairam sobre Alcoentre. Sei, com toda a certeza que a lei e a decência permitem, que ninguém devia ser chamado a decidir o destino de dois mil milhões de euros com apenas dois dias úteis de leitura e análise. Enquanto a transparência continuar a ser tratada como um favor e não como uma obrigação, Alcoentre e tantos outros lugares continuarão a acordar todas as manhãs sem saber que novos fardos lhes reservaram, durante a noite, em nome do progresso.