segunda-feira, 09 fev. 2026

O mundo depois da trégua: EUA, China e a disputa pelo futuro da globalização

A trégua de doze meses entre EUA e China, anunciada no final de Outubro, é um breve interlúdio num conflito estrutural que há muito ultrapassou as tarifas aduaneiras. Não está em jogo apenas o comércio, mas a arquitectura de poder da globalização contemporânea.

Após anos de escalada tarifária e restrições tecnológicas, a suspensão mútua de novas tarifas reflecte um cansaço económico e político desta estratégia. Nos EUA, a administração Trump tenta conter os custos crescentes da guerra económica que o próprio país iniciou, pagos pelos consumidores com a crescente inflação. A indústria automóvel e os produtores agrícolas, tradicionalmente bases eleitorais republicanas, foram dos sectores mais penalizados pelas retaliações chinesas.

Do lado chinês, o impacto das restrições ao sector tecnológico, como aos semicondutores de última geração, agravada pela proibição de exportação de tecnologia avançada dos EUA, gera tensão sobre segmentos estratégicos da economia chinesa, como a inteligência artificial e automação industrial. A trégua oferece à China uma oportunidade para consolidar a sua estratégia nacional de autonomia tecnológica, com objectivos de substituição de importações e liderança industrial, e para fortalecer alianças estratégicas com países do Sul Global.

Mas a aparente distensão oculta uma disputa muito mais profunda: a do controlo das cadeias de valor da economia verde e digital. A batalha pelos minerais críticos, como o lítio, cobalto, terras raras, é hoje o verdadeiro campo de batalha da nova geoeconomia. A recente pressão dos EUA sobre a Holanda e o Japão para restringirem as exportações de equipamentos centrais ao fabrico de chips de última geração (e que são chave para IA, sistemas militares, 5G, etc.) à China, bem como a disputa pelo domínio da Nexperia, empresa de semicondutores na Holanda de capital chinês, ilustram a natureza estratégica desta disputa. Os EUA não procuram apenas conter a China, mas moldar o futuro da globalização em moldes hierárquicos, onde o acesso à inovação e aos recursos permanece controlado pelo Ocidente.

A trégua, portanto, é mais simbólica do que transformadora, uma pausa táctica num jogo de soma negativa, onde ambos os contendores procuram recuperar fôlego antes da próxima ofensiva. A globalização, outrora sustentada por fluxos abertos de comércio e investimento, é hoje reconfigurada por políticas de segurança nacional e competição tecnológica.

Num mundo em reconfiguração, a União Europeia ocupa um lugar ambíguo: simultaneamente aliada e refém dos EUA, dependente das cadeias industriais chinesas e das garantias de defesa norte-americanas. Oscila entre a retórica da “autonomia estratégica” e a evidência de que o seu poder sempre assentou no comércio, mais como instrumento de influência do que de soberania. Cada vez mais voltada para si própria, a Europa enreda-se numa lógica de auto-suficiência e escalada armamentista que não reduz, mas antes expõe, as suas vulnerabilidades estruturais: energética, tecnológica e militar.

A dependência energética do gás natural liquefeito norte-americano reforçou a subordinação aos EUA e os lucros das suas multinacionais. A Europa, que julgava ter superado a crise energética de 2022, apenas trocou a interdependência com a Rússia por uma dependência desigual face a um aliado que a trata como cliente, não como parceiro. Na busca por minerais críticos, fornecedores africanos, desconfiados de décadas de políticas extractivistas e paternalistas, tendem hoje a preferir a China como parceiro. A dependência tecnológica mantém-se: as grandes empresas europeias de semicondutores dependem dos mercados e patentes norte-americanas, enquanto as Big Tech dos EUA controlam a nuvem, os dados e a inteligência artificial que sustentam a economia europeia. No plano militar, os países europeus gastam hoje mais do dobro do que há uma década, mas a maior fatia desses recursos financia armamento americano. Assim se define o papel europeu na nova ordem mundial: não o de actor soberano, mas o de espaço de influência alheia.

A trégua entre EUA e China não anuncia um regresso à globalização liberal, mas uma transição para um mundo fragmentado, de “globalizações paralelas”, onde blocos rivais disputam normas, tecnologias e recursos. É o fim do mito da globalização harmoniosa e o início de uma era de competição prolongada. E, como nas guerras frias anteriores, as tréguas são apenas momentos de silêncio antes de o ruído das potências regressar.

Professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense