quinta-feira, 10 set. 2026

Construir o futuro preservando as memórias

Portugal atravessa um período de tensão entre preservação das suas identidades locais e uma pressão mercantil para a transformação do património em produto de consumo, maioritariamente turístico.

Poderá uma tradição popular ser também turismo? E poderá sê-lo mantendo-se fiel à sua identidade? Eu não só digo que pode, mas que deverá sê-lo.

As Festas do Mar, aqui em Cascais, são o nosso património imaterial, que resiste e cresce precisamente porque não subvertemos a sua lógica. Uma celebração que nasceu da relação ancestral e umbilical que Cascais tem com o Mar, que enaltece as nossas origens enquanto vila piscatória, o quotidiano associado a esta dura vida, o culto da Nossa Senhora dos Navegantes.

Até ao dia de hoje, mantiveram-se vivas estas ligações graças ao investimento contínuo da Câmara Municipal de Cascais, às confrarias, às associações locais e, claro, à comunidade piscatória. Como é lógico, as Festas do Mar evoluíram ao longo do tempo, estranho seria se tal não acontecesse; não obstante, continua sem ser um evento criado para efeitos turísticos. São uma parte importante da identidade cascalense que a vila continua a proteger.

Portugal atravessa um período de tensão entre preservação das suas identidades locais e uma pressão mercantil para a transformação do património em produto de consumo, maioritariamente turístico. O nosso papel, enquanto autarquia, é altamente relevante para garantir que isto não acontece, que as nossas tradições e viveres não desaparecem, que passam de geração em geração.

Olhemos para Cascais. Cascais pretende ser a capital da qualidade de vida em Portugal. Para o ser, estamos a investir na manutenção da identidade local de Cascais, a protegê-la institucionalmente. Quantos municípios portugueses têm planeada a preservação de tradições e a sua acessibilidade geral, como as Festas do Mar, que são parte do ADN coletivo da população?

Falamos de um dos maiores eventos culturais de acesso gratuito em todo o país. Na edição do ano passado, foram mais de 40 mil as pessoas que se juntaram numa noite na baía para ouvir música portuguesa.

Esta é, portanto, uma questão que ultrapassa as nossas fronteiras autárquicas. Com a tentação moderna de apelidar o antigo de “ultrapassado”, existe um equilíbrio entre fidelidade e renovação. Com a oferta turística cada vez mais uniformizada, são estas pequenas diferenças (aquilo que Portugal tem de melhor) que distinguem os territórios entre si. Cascais está disposto a fazer o que sempre fez bem. As Festas do Mar são, todos os anos, um exemplo primário de que esta estratégia funciona.

Todos os anos inovamos nas Festas do Mar, porque as circunstâncias assim o exigem. Nunca lhe retiramos a sua essência, porque os cascalenses assim o exigem. Cuidar de Cascais é também preservar aquilo que faz de Cascais aquilo que é. As Festas do Mar são parte dessa identidade.

Presidente da Câmara Municipal de Cascais