segunda-feira, 17 ago. 2026

A entrevista de Gary Morgan e o que falta dizer sobre os incêndios em Portugal

A paisagem chega ao Verão já decidida, e o que os meios aéreos e terrestres fazem é gerir o que ela já determinou.

Li com atenção a entrevista de Gary Morgan ao jornal SOL. Tem razão em quase tudo o que afirma. A prevenção é mais barata do que o combate, porque actua sobre a causa e não sobre a consequência; um avião nunca apaga sozinho um incêndio de grande dimensão, porque a sua eficácia depende da intensidade do fogo que encontra; uma floresta carregada de combustível produz, mais cedo ou mais tarde, incêndios de comportamento extremo, porque a quantidade e a continuidade da biomassa determinam a velocidade de propagação. E tem razão quando diz que Portugal continua concentrado na supressão em vez de na gestão da paisagem.

Discordo apenas de um ponto, mas discordo com convicção: a ideia de que o fogo prescrito deve ser o instrumento central de gestão. Voltarei a isso mais adiante.

O combate começa meses antes da primeira ignição

Não existe tecnologia capaz de compensar décadas de abandono do território. Não existe dispositivo operacional que vença uma paisagem preparada para arder; a paisagem chega ao Verão já decidida, e o que os meios aéreos e terrestres fazem é gerir o que ela já determinou. É por isso que o verdadeiro sistema de combate não se constrói em Julho; constrói-se no Inverno e na Primavera, quando se decide onde infiltrar a água, onde abrir e manter caminhos, onde recuperar linhas de água, onde interromper a continuidade do combustível, onde manter agricultura activa, onde apoiar o pastoreio.

Cada uma destas decisões reduz directamente a velocidade e a intensidade de um incêndio antes de ele existir. Uma vala de infiltração não apaga fogo; atrasa a água, mantém humidade no solo durante mais tempo e sustenta vegetação menos inflamável. Um mosaico agrícola não é decoração da paisagem; é uma descontinuidade real de combustível, testada e comprovada em incêndios que perdem intensidade ao atravessar uma parcela cultivada ou pastoreada. Quando estas decisões não são tomadas, o Verão deixa de ser uma estação e passa a ser uma emergência à espera de acontecer.

O que financiamos é o que obtemos

Portugal melhorou meios, comunicações, procedimentos e coordenação entre entidades nos últimos anos; isso é facto e deve ser reconhecido. Mas continua a existir uma inversão de prioridades, visível em qualquer debate público sobre incêndios: discute-se o número de Canadair, as horas de voo, os reforços de Verão, a rapidez da primeira intervenção. Discute-se muito menos como evitar que esses meios sejam necessários.

A prevenção continua a ser tratada como despesa e não como investimento, o que é um erro de contabilidade tão grande quanto um erro de engenharia. Cada hectare gerido representa milhares de euros que nunca serão gastos em combate, indemnizações, reconstrução de infra-estruturas, perda de produção agrícola ou recuperação de solos ardidos. Enquanto a maior parte do investimento público continuar concentrada na supressão, o país vai continuar, naturalmente, a aperfeiçoar a supressão; é isso que está a ser financiado, e um sistema tende sempre a optimizar aquilo que recebe recursos, não aquilo que precisaria deles.

Esta lógica explica o essencial se a seguirmos até ao fim. Se financiamos sobretudo o combate, o que obtemos é combate; melhores aviões, melhores comunicações, melhores tempos de resposta. E obtemos também fogo, porque nenhuma dessas capacidades actua sobre a causa; o dinheiro entra depois da ignição, quando a paisagem já decidiu a dimensão do incêndio, e sai outra vez no ano seguinte para financiar o mesmo combate, contra a mesma paisagem, que continua por tratar. É um investimento que se consome a si próprio; quanto mais se gasta em apagar, mais se confirma que apagar é a única resposta disponível, e menos sobra para mudar a condição que obriga a apagar.

Se, pelo contrário, financiamos a prevenção no Inverno, quando a paisagem ainda não está sob pressão e há tempo para trabalhar com calma, o que se obtém já não é combate. É floresta; porque uma parcela gerida no Inverno, limpa de combustível acumulado e plantada ou mantida com critério, chega ao Verão viva e não carregada. É sombra; porque um coberto vegetal contínuo e bem gerido reduz a temperatura do solo e do ar junto ao chão, o que por sua vez reduz a velocidade a que a humidade se perde. É água; porque cada vala de infiltração, cada linha de água recuperada, cada solo com mais matéria orgânica retém no Inverno o que, de outro modo, escorreria para o mar em poucos dias, e devolve-o à paisagem lentamente, ao longo do Verão, sob a forma de humidade no solo e caudal nas linhas de água. É solo; porque um solo coberto e vivo no Inverno não erode, acumula carbono e sustenta raízes mais profundas, que por sua vez sustentam vegetação mais resistente ao stress hídrico do Verão seguinte. E é vida; porque água, sombra e solo fértil formam, juntos, a condição básica de que dependem a agricultura, o pastoreio, a fauna selvagem e as comunidades que ainda vivem do território.

A diferença entre estes dois caminhos não é de intenção; é de timing. Financiar em Julho é financiar a emergência, e a emergência só sabe produzir mais emergência. Financiar em Janeiro é financiar a paisagem, e a paisagem, uma vez recuperada, começa a trabalhar sozinha; deixa de precisar do mesmo nível de investimento ano após ano, porque a água que infiltrou continua a infiltrar, e o solo que se recompôs continua a reter. É a única forma de investimento em incêndios que reduz, com o tempo, a necessidade do investimento seguinte.

A criminalidade existe; a paisagem decide o resultado

Seria ingénuo ignorar a origem humana de grande parte dos incêndios. Os relatórios do ICNF sobre 2025 mostram que, entre as ocorrências com causa atribuída, o incendiarismo imputável é a categoria mais frequente, à frente de qualquer causa acidental ou negligente. Isto exige investigação, fiscalização e punição eficaz, sem hesitações.

Mas é preciso separar duas coisas que a discussão pública costuma confundir: a ignição e a catástrofe. Uma ignição não é, por si só, um desastre; transforma-se num quando encontra combustível contínuo, vento e uma paisagem sem descontinuidades que a travem. O distrito do Porto regista todos os anos o maior número de ocorrências do país, mais de mil e novecentas até meados de Outubro de 2025, e ainda assim mais de 90% delas não ultrapassam um hectare. A explicação não está apenas na frequência das ignições; está também na densidade de ocupação humana, que gera mais causas, e na estrutura fundiária da região, que limita a continuidade do combustível e, por isso, limita também a dimensão do fogo.

Mesmo que eliminássemos amanhã todas as ignições criminosas, o problema estrutural continuaria por resolver. O combate mede-se pela paisagem que encontra, não apenas pela mão que acende o fósforo.

A mobilização nacional é um sintoma, não uma vitória

Quando um grande incêndio obriga a deslocar centenas ou milhares de operacionais de norte a sul do país, isso não deve ser lido como sucesso operacional. É o sinal de que o território não foi preparado para conter o fogo com meios regionais. Um sistema resiliente resolve a maioria das ocorrências localmente; só recorre à resposta nacional em situações verdadeiramente excepcionais.

Esta capacidade depende, em grande parte, de continuidade institucional. Quando a decisão estratégica em protecção civil e em ordenamento é condicionada por ciclos políticos, nomeações sem perfil técnico ou rotatividade elevada, perde-se conhecimento acumulado; e a prevenção é, por natureza, um trabalho de décadas, que não se recomeça a cada mudança de mandato sem custos.

Onde discordo de Gary Morgan

Morgan defende o uso intensivo do fogo prescrito como ferramenta central de gestão da paisagem. Prefiro uma posição diferente: o fogo deve ser excepção, não estratégia. A razão é simples. Uma paisagem que depende de queimas sucessivas para se manter gerida continua a depender de combustível acumulado entre queimas; basta uma falha de calendário, um ano de seca ou uma condição meteorológica adversa para que essa mesma ferramenta produza o incêndio que devia evitar.

Prefiro construir paisagens onde haja simplesmente menos combustível disponível para arder, através de água infiltrada, pastoreio, agricultura activa, gestão mecânica do coberto vegetal e valorização económica da biomassa retirada. Estas soluções não reduzem apenas o risco; produzem também fertilidade, biodiversidade e economia local, o que o fogo prescrito, usado como método principal, não oferece.

O que fica

O objectivo nunca deveria ser construir o melhor sistema para apagar incêndios. É construir um território onde os grandes incêndios deixem de encontrar condições para se formar. Os bombeiros continuarão indispensáveis; o que precisa de mudar é deixarem de ser, como são hoje, a nossa principal política florestal.

Fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.