Portugal apresenta cerca de 446 polícias por 100.000 habitantes (EUROSTAT), um dos rácios mais elevados da União Europeia. É uma estatística que soa bem, mas é enganosa.
Não se pode, sem olhar mais a fundo, carimbar a PSP com este rácio, pela elevada distorção da realidade. É uma média nacional que protege quem decide, não quem policia.
No terreno, os números contam outra história. Com base nos Censos 2021 e nos efetivos reportados no RASI 2025, a PSP (19.661 polícias para 5.424.752 residentes) apresenta um rácio real de 362 polícias por 100.000 habitantes. A GNR (23.549 militares para 4.918.314 residentes) tem um rácio de 479 por 100.000. A diferença é de 117 polícias por 100.000 habitantes, isto é, a PSP opera com menos 24% de recursos, numa assimetria estrutural que o discurso oficial insiste em ignorar, quiçá convenientemente.
Esta disparidade agrava-se, ainda mais, quando se considera o contexto operacional. A PSP cobre apenas 5% do território nacional, mas é nessa parcela que vivem mais de metade dos portugueses, que se concentram as Zonas Urbanas Sensíveis, os maiores índices de criminalidade violenta e grave e a maior intensidade de intervenção policial diária. O RASI 2025 confirma-o: a criminalidade geral subiu 3,1%, reflexo direto da maior proatividade policial – mais fiscalização, mais detenções, mais operações. Os resultados aparecem quando há ação. Mas essa ação tem um custo humano que ninguém contabiliza.
O Tribunal de Contas francês (Cour des Comptes), no relatório temático ‘La répartition des zones de compétence entre la police et la gendarmerie nationales’ (2025), assume uma relação próxima de 8 gendarmes por cada 10 polícias nacionais, evidenciando que a Police Nationale assume a generalidade das situações operacionais mais complexas e exigentes em matéria de delinquência e segurança urbana, concentrando a sua atuação nos principais centros urbanos e áreas metropolitanas, enquanto a Gendarmerie Nationale assegura predominantemente a cobertura territorial de espaços rurais e periurbanos. Em Portugal, onde a lógica deveria ser idêntica, acontece o inverso: a força que policia o território mais denso, mais complexo e mais exigente é precisamente a que tem menos efetivos por habitante. Não é ao acaso, por isso, que a Polícia Nacional conta com 150.000 polícias, ao passo que a Gendarmerie tem nos seus quadros pouco mais de 100.000. Há lógica e há racionalidade, ao contrário de Portugal.
A ‘polícia das cidades’ carrega desproporcionalmente o fardo da segurança em Portugal, que é cada vez mais urbana. A GNR, apesar de desempenhar um papel fundamental nol território vasto e rural, o impacto diário na perceção de segurança dos portugueses concentra-se, quase na totalidade, nas áreas da PSP.
E o quadro piora: há vários anos que as saídas superaram as entradas, com um envelhecimento acentuado dos polícias. Exige-se mais, entrega-se menos e corta-se ainda mais.
O recente anúncio de encerramento de Esquadras, que defendemos pelos motivos certos, só ocorre como medida desesperada para mascarar a redução de efetivo, porque no passado, os argumentos técnicos e científicos, nunca foram suficientes.
É tempo de corrigir esta distorção. Reforçar o efetivo da PSP, criar mecanismos eficazes de atração e retenção, tanto de polícias como de pessoal civil. E adequar os recursos ao risco real e ao volume de trabalho não é um privilégio. É uma questão de justiça e uma necessidade estratégica.
Porque a segurança não se mede apenas em médias nacionais. Mede-se onde ela é mais exigida.
E, em Portugal, a quem mais se exige, continua a dar-se menos.
Vice-presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais da PSP