Os números são simples: sete membros com base em Lisboa, dois com ligação ao Porto e um oriundo dos Açores. Mais do que uma curiosidade estatística, esta distribuição revela como o poder político e institucional em Portugal continua concentrado num único ponto do território.
Não vale a pena dividir responsabilidades formais entre quem nomeia e quem elege. O resultado é o mesmo e é isso que importa. Em ambos os casos havia margem para escolhas diferentes. Em ambos os casos poderiam ter sido designadas figuras com percursos, experiências e bases territoriais mais diversas. Não foi isso que aconteceu.
O padrão repete-se: nomes com carreiras feitas em Lisboa, redes construídas em Lisboa e influência exercida a partir de Lisboa. Mesmo quando há origens geográficas distintas, isso pouco altera o essencial. Um percurso consolidado na capital pesa mais do que o local de nascimento.
Há exceções, como Alberto Martins, figura historicamente ligada ao Porto. Mas são isso mesmo, exceções, e cada vez mais residuais no contexto atual. Mesmo figuras com origem noutras regiões, como Carlos Moedas ou Leonor Beleza, têm hoje o seu centro de decisão claramente sediado em Lisboa.
O Norte, com o seu peso económico e industrial, surge com uma presença reduzida. E o resto do país, interior, Alentejo e Algarve, praticamente não entra na equação. Não porque faltem pessoas qualificadas ou com percurso. Mas porque o sistema continua a selecionar sempre a partir do mesmo núcleo.
Isto não é um acaso nem uma falha pontual. É o reflexo de um modelo profundamente centralizado, onde o acesso aos lugares de topo passa quase inevitavelmente por Lisboa. Quem chega a estes órgãos já percorreu esse caminho e raramente foge dele.
O Conselho de Estado deveria beneficiar de diversidade real de experiências e de visões do país. Não por uma questão simbólica, mas por eficácia. Um país não se lê da mesma forma a partir de Lisboa, do Porto ou do interior. E quando quase todas as leituras vêm do mesmo sítio, o risco é óbvio, uma visão parcial apresentada como total.
Fala-se muito de descentralização e coesão territorial. Mas enquanto os órgãos de topo continuarem a ser compostos desta forma, esse discurso fica vazio.
No fim, a conclusão é simples e desconfortável. Portugal continua a decidir-se a partir de Lisboa, mesmo quando finge que não.
Presidente da federação do Porto do PS