O artigo recente, neste jornal, de Rui Moreira, ex-presidente da Câmara do Porto, merece ser lido, mas exige, antes de tudo, memória. Porque quando quem liderou durante mais de uma década uma das principais autarquias do país surge agora a distribuir críticas, a pergunta impõe-se com naturalidade: o que foi feito quando havia poder para decidir?
O novo terminal de contentores de Leixões não é um detalhe técnico nem um capricho político. É uma infraestrutura estratégica para a economia do Norte, para a capacidade exportadora das empresas e para o posicionamento logístico do país. Projetos desta dimensão medem-se menos pelas intenções e mais pela capacidade de execução.
Durante dez anos, o terminal sul, hoje multiusos, foi estudado, preparado e apresentado como essencial. Criou-se uma expectativa legítima junto do tecido empresarial. O Norte precisava dessa decisão.
Mas, a meio do caminho, surgiu a proposta de um novo terminal a norte. Não como complemento, mas como alternativa implícita. O resultado foi o pior possível: discutiu-se o futuro e travou-se o presente. Passaram anos. E continuamos praticamente no mesmo ponto.
Prometeu-se rapidez, anunciou-se prioridade, garantiu-se urgência. Porém, o projeto permanece nos desenhos, sem avaliação ambiental estratégica concluída, sem Declaração de Impacte Ambiental, sem um estudo económico-financeiro robusto e sem um calendário credível.
Quando um projeto amadurecido durante uma década não avança, o problema deixa de ser técnico. Torna-se um problema de decisão.
Por isso surpreende ver quem teve influência política relevante durante tantos anos procurar agora simplificar o debate e apontar responsabilidades a outros. Os atrasos raramente nascem do acaso; tendem a ser o resultado de escolhas — ou da falta delas.
Neste contexto, importa ser claro: defender populações e exigir rigor não é travar o desenvolvimento. É garantir que ele não nasce comprometido. Infraestruturas desta escala pedem ambição, mas também pedem responsabilidade.
Luísa Salgueiro fez precisamente o que se espera de quem exerce funções públicas: proteger o seu território, exigir clareza e recusar decisões apressadas cujos custos possam perdurar por décadas.
As regiões que crescem de forma consistente não vivem de anúncios sucessivos. Vivem de planeamento sério e de execução. O Norte precisa de ambição — mas precisa ainda mais de credibilidade. E credibilidade constrói-se com obra feita, não com leituras tardias do passado.
Mais do que procurar culpados externos, talvez fosse mais útil perguntar como chegámos a um atraso difícil de justificar num projeto há muito considerado prioritário. Liderar também é alinhar estratégias, mobilizar vontades e remover bloqueios. Não basta falar de crescimento; é preciso torná-lo possível.
O futuro do Norte não depende de ruído nem de revisões convenientes da história. Depende de decisões.
O novo terminal de Leixões continua a ser vital. Cada ano perdido são investimentos que escolhem outros portos, empresas que perdem competitividade e oportunidades que dificilmente regressam.
Mas estas são soluções paliativas: o que Leixões precisa é de se reinventar, crescendo para o mar e para o hinterland, devolvendo espaços à cidade. Assim se afirmará como um porto para o século XXI, o porto que o Norte merece e o país necessita.
O Norte merece mais do que expectativas adiadas.
Merece execução.
Merece liderança.
Merece futuro.
Ex-presidente da APDL, presidente da Federação do Porto do PS