Querida avó,
Os indicados para a 98.ª edição dos Óscares foram anunciados recentemente.
Curiosamente, acabei de ler um artigo sobre o decréscimo de idas ao cinema e sobre o facto de cada vez existirem menos salas de cinema.
Tinha eu uns cinco ou seis anos quando fui ao cinema pela primeira vez. Ou, pelo menos, é assim que a memória decidiu organizar os factos, que a memória também faz montagem, corta cenas e acrescenta música sentimental onde não havia. Sei que foi em Lisboa, no antigo Cinema Éden, ali nos Restauradores. Vi “A Dama e o Vagabundo” e fiquei convencido de duas coisas importantes para a vida adulta: que o amor pode nascer de um prato de esparguete (talvez isso explique a minha paixão por Itália) e que os cães entendem tudo melhor do que nós.
O Éden parecia enorme, quase infinito. Não havia telemóveis, não havia trailers de vinte minutos, e ninguém perguntava se aquilo “já estava em streaming”.
Hoje vou menos ao cinema. Não por falta de amor, mas por excesso de cansaço – porque muitas salas decidiram fechar portas como quem se despede sem fazer barulho. O Éden já não é cinema, é outra coisa qualquer. As damas desapareceram! Já os vagabundos… As cidades pequenas, então, ficaram órfãs: há lugares onde os filmes nem chegam a estrear, como se fossem cartas devolvidas por endereço inexistente. Em certas zonas do país é necessário fazer 50 km para ir ver um filme, imagina.
Cresce-se a ver o mundo num ecrã cada vez menor… O cinema ensinou-me a ficar quieto no escuro, a partilhar o silêncio com desconhecidos, a rir e a comover-me ao mesmo tempo que os outros. Hoje vê-se filmes num tablet, às vezes no telefone, e o Vagabundo cabe na palma da mão.
E eu, sempre que passo pelos Restauradores, ainda olho para o antigo Éden como quem procura um cão perdido da infância, sabendo perfeitamente que ele já não vai voltar – mas assobiando na mesma, só para o caso.
Bjs
Querido neto,
Nem me recordo da última vez que fui ao cinema! No entanto quero partilhar contigo o seguinte:
Há muitos anos fui numa excursão a Marrocos.
Para mim, e para muitos da minha geração, “Casablanca” foi e continua a ser o filme da nossa vida.
Humphrey Bogart, que se chamava Rick e tinha um bar acendia cigarros a olhar para a Ingrid Bergman, que se chamava Ilse, e murmurava em voz rouca «here’s looking at you, kid», qualquer coisa como «estou a olhar para ti, miúda», e recordava Paris como lugar único de amores eternos.
Sam tocava ao piano “As Time Goes By”, no bar do Rick, e quando entravam os alemães cantava-se a “Marselhesa” e nós nunca tínhamos visto nada assim, e ficávamos com vontade de fazer muitas coisas heroicas e de nunca deixar que os maus vencessem.
Durante anos e anos tinha sonhado ir a Casablanca ver o bar do Rick. Sabia exatamente onde ficava, tinha na memória as suas paredes brancas, o portão de ferro forjado, os velhos sentados cá fora.
Assim que a excursão chegou à cidade, não pensei noutra coisa.
«Leva-me ao Bar do Rick!» – pedi ao guia, logo na primeira noite em Casablanca.
Nunca esquecerei a gargalhada que lhe ouvi.
«Outra!…» – Repetia ele, sem parar de rir.
Quando finalmente se recompôs, informou-me que todas as estrangeiras, assim que chegavam a Casablanca, vinham doidas para se enfiar no bar do Rick.
«O pior…», explicou ele, «é que não há nenhum bar do Rick em Casablanca! Nem nunca houve!».
«Como não há! Claro que há!», insistia eu. «Sei perfeitamente onde é, acho mesmo que até passámos por ele no autocarro, quando chegámos esta tarde!».
Mas a verdade, a dura verdade, é que não havia mesmo.
Tudo tinha sido uma reconstituição. Tudo tinha sido filmado nos estúdios americanos, onde o filme era realizado.
Acho que nunca me recompus da desilusão.
Se até hoje não viste o filme, vê-o, por favor.
Agora vou ver um filme, na Netflix.
Bjs