terça-feira, 18 ago. 2026

Uma casa junto ao mar

Bonnie Tyler marcou uma geração inteira porque cantava emoções sem pedir licença. As canções eram enormes, exageradas, teatrais. Tudo tão diferente do que hoje se ouve. Hoje chamam-lhe power ballads. Na altura chamávamos-lhe simplesmente “aquela música que obriga a aumentar o volume até os vizinhos também sofrerem”.

Querida avó,

Com o calor que tem estado, julgo que a decisão de teres ido viver para a Ericeira foi das melhores que tiveste.

Viver junto ao mar é uma excelente forma de equilibrar o corpo e a alma.

Escrevo-te esta carta no dia em que morreu Bonnie Tyler, a cantora galesa, de voz rouca, que atingiu o estrelato nos anos de 1980. Também ela se apaixonou com a ideia de morar à beira-mar, mais propriamente em Albufeira, onde vivia grande parte do ano.

Ela não cantava apenas músicas. Produzia hinos para quem sofria por amor, mesmo sem ter grande motivo para isso. Bastavam os primeiros acordes de It’s a Heartache para uma geração inteira ficar imediatamente convencida de que o namoro da escola tinha sido uma tragédia digna de Shakespeare.

E depois ouvíamos Holding Out for a Hero. Durante quatro minutos, qualquer adolescente acreditava que um herói musculado ia aparecer montado num cavalo branco.

E claro, havia Total Eclipse of the Heart, talvez a única canção capaz de transformar uma viagem de carro entre Lisboa e Cascais numa ópera dramática. Quem nunca olhou pela janela, num dia de chuva, convencido de que era protagonista de um videoclipe daquela música, provavelmente não viveu verdadeiramente os anos 80.

Bonnie Tyler marcou uma geração inteira porque cantava emoções sem pedir licença. As canções eram enormes, exageradas, teatrais. Tudo tão diferente do que hoje se ouve. Hoje chamam-lhe power ballads. Na altura chamávamos-lhe simplesmente “aquela música que obriga a aumentar o volume até os vizinhos também sofrerem”.

No fundo, fez aquilo que muitos sonham fazer: encontrou um lugar onde pôde viver ao ritmo das marés e da tranquilidade, sem nunca deixar de ser a mulher que fez milhões de pessoas cantar aos gritos as suas músicas.

É lamentável que não venha a herdar essa linda casa, em frente ao mar, onde vives.

Cuidado com o calor. Tu, mantém-te hidratada! Com água, de preferência.

Bjs

Querido neto,

A Ericeira sempre foi um lugar muito fresco, mesmo nos meses de verão. Nem pensar em sair à rua sem levar um casaco. O sol só aparecia lá para as quatro da tarde e durava pouco. Quando eu dizia às minhas amigas que vinha para cá todas me chamavam maluca: «Tu até tens casa em Cascais! Por que é que vais para esse gelo?».

Mas as mudanças climáticas fizeram da Ericeira outra terra!

Tem estado um calor insuportável. Tenho passado os dias quase todos na minha varanda, onde costumo almoçar e jantar. E toda a gente que passa na rua me grita «ó vizinha, já viu este calor?».

Gostava muito de ouvir a Bonnie Tyler, que há 50 anos decidiu viver em Portugal, perto do mar. Há qualquer coisa de poético em trocar os grandes palcos pelo som das ondas. O oceano nunca lhe pediu um encore; limitava-se a acompanhá-la como se o som das ondas fossem aplausos.

Para além do mar, a paixão pelos cavalos era outra coisa que tínhamos em comum. Não eram apenas um passatempo, fizeram parte da sua vida durante décadas. Convenhamos que é uma combinação perfeita. Uma mulher que passou a vida à procura de um herói acabou por preferir a companhia de cavalos, que, além de mais elegantes, nunca deixam a tampa da sanita levantada.

Imagino-a a cavalgar ao fim da tarde, junto à costa portuguesa, enquanto algum turista olha para ela e pensa:

- Aquela senhora faz-me lembrar alguém...

Claro que sim! Era uma das vozes mais inconfundíveis da história da música, agora integrada na paisagem nacional, entre as gaivotas e mar.

Portugal tem este estranho talento: recebe pessoas vindas dos quatro cantos do mundo e, ao fim de pouco tempo, elas já discutem o estado do tempo, elogiam o peixe grelhado e descobrem que o pôr do sol sobre o Atlântico é do melhor que pode haver.

A minha vizinha do andar de baixo anda com baldes de água a regar as plantas do quintal!

E acho que hoje só vou sair de casa à noite.

Ao que isto chegou…

Bjs