Querida avó,
Sei que estás sempre a elogiar a Ericeira. Local que tem tudo e onde não falta nada. No entanto, que eu saiba, esse belíssimo local à beira-mar plantado não tem uma casa de fados.
Fui jantar ao Faia. Onde vou frequentemente, como sabes. Tenho uma grande amizade pela família Ramos (todos têm nome de Santos: António, Pedro e Paulo).
Foi nesta casa que conheci a Anita Guerreiro. Ao longo dos anos, foi no Faia que a Anita me foi contando histórias da sua vida, do Pepe Cardinali e de Lisboa.
Como não podia deixar de ser, foi onde fizemos uma linda festa para celebrar os seus 85 anos. Provavelmente, dessa noite pouco ficou gravado nas suas memórias. No entanto, foi uma celebração inesquecível para todos os que estiverem presentes.
Gosto sempre de voltar ao Faia! Não só para recordar a Anita, como para ouvir a Lenita Gentil, o Ricardo Ribeiro, o António Rocha e a nova geração de fadistas, que mantêm vivas as canções da Anita. Já para não falar que a comida portuguesa contemporânea é maravilhosa.
Já vi e já vivi muitas coisas nesta vida… mas poucas tão sérias como um bom fado. Felizmente, não segui a vocação do meu avô Alberto, que gostava de cantar fado depois de dois copos de tinto. O fado não é só música, é terapia: choramos, suspiramos e acabamos a aplaudir.
O Faia não é apenas uma casa de fado, é praticamente uma instituição nacional!
Onde também tenho ido é ao Museu do Fado. Local onde há anos conheci a grande Celeste Rodrigues. O Museu tem sempre imensos turistas e também portugueses que vão saber mais sobre o Fado, esta característica tão nossa de “gostarmos de sofrer com estilo”. Muitos entram curiosos e julgam que vão sair fadistas de xaile pelos ombros.
No fundo, o fado é isto: uns cantam, outros choram, e no fim ninguém sabe bem porquê… mas sabe mesmo bem.
Se vieres à Feira do Livro (que começa no próximo mês) vamos visitar o Museu do Fado e Jantar ao Faia?
Bjs
Querido neto,
Já não me lembro da última vez que fui ao Faia.
Como sabes, trabalhei muitos anos em diversos jornais, que existiam no Bairro Alto. Muitas vezes ficávamos da redação até altas horas, acabávamos por ir jantar ao Faia.
Tenho ideia de que a casa abriu antes de 1950, imagina. Sempre foi uma referência histórica na noite lisboeta. Fundada pela fadista Lucília do Carmo, rapidamente se tornou um local de prestígio no fado. Mais tarde, foi gerida pelo meu amigo Carlos do Carmo. O filho de Lucília assumiu a gestão, consolidando a casa como um dos pilares do Fado em Lisboa. Creio que na década de 1980, passou para a família Ramos (teus amigos), que já lá trabalhavam. Até hoje, mantiveram as tradições associadas à casa. O Faia é reconhecido, como “Loja com História”, como sabes.
Por lá passaram Alfredo Marceneiro, Tristão da Silva, Fernando Maurício, Beatriz da Conceição e Camané…
Quanto ao Museu do Fado, o ano de 1998 foi muito importante para mim. Passei parte do ano na Expo 98. Foi nesse mesmo ano que o Museu do Fado abriu portas, mais precisamente em setembro.
Desde a sua abertura ao público têm convergido os espólios de centenas de intérpretes, autores, compositores, músicos, construtores de instrumentos, estudiosos e investigadores, artistas profissionais e amadores. Centenas de testemunhos que construíram a história do Fado.
Sabias que o Museu do Fado está instalado onde era a “Estação Elevatória de Águas de Alfama”, um dos mais importantes edifícios de equipamentos lisboeta do século XIX?
Em novembro de 2011, o Fado foi declarado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esta distinção é um orgulho para todos nós. Reconhece a canção urbana de Lisboa, caracterizada pela melancolia, sentimento e guitarra portuguesa, como um símbolo vital da identidade cultural portuguesa.
Nunca viro as costas aos teus convites!
Apresentas-me a Sara Pereira e os teus amigos Ramos?
Bjs