quinta-feira, 11 jun. 2026

Rua Sésamo

Atualmente os miúdos têm tablets, inteligência artificial, redes sociais… Nós tínhamos um monstro azul viciado em bolachas.

Querida avó,

Com esta idade, já sobrevivi a diversas crises de mudança da idade … Tudo faz parte do crescimento!

Mas há uma coisa que continua intacta no meu coração: A Rua Sésamo.

A Rua Sésamo não era um programa. Era uma instituição nacional. Era praticamente o Ministério da Educação… só que com bonecos peludos e menos reuniões inúteis.

Atualmente os miúdos têm tablets, inteligência artificial, redes sociais… Nós tínhamos um monstro azul viciado em bolachas. E aprendíamos! Aprendíamos o alfabeto, os números, a amizade, e sobretudo uma lição essencial: nunca confiar num pássaro gigante que vive numa rua onde ninguém paga renda.

A Rua Sésamo marcou uma geração inteira. Nós crescemos com o Poupas, o Becas, o Ferrão… e havia sempre aquela sensação reconfortante de que o mundo podia ser melhor se toda a gente resolvesse os problemas a cantar.

Maria Emília Brederode Santos (que recentemente nos deixou), foi a “mãe do programa”. Percebeu uma coisa revolucionária para a época – que ensinar crianças não tinha de parecer um castigo medieval. Imaginem o escândalo nos anos 80:

“Então mas… aprender pode ser divertido?”

Quase uma heresia!

Ela trouxe uma visão moderna da educação numa altura em que muita gente ainda achava que pedagogia consistia em gritar “endireita-te na cadeira!” e distribuir reguadas.

«O Sol nasceu. Como está lindo o céu. Cá vou eu, vem tu daí também. Aprender como se vai até à Rua Sésamo; Vem brincar, traz um amigo teu, e ao chegar tu vais poder também, ensinar como se vai até à Rua Sésamo», assim começava o genérico que nos colava ao televisor.

A verdade é que a Rua Sésamo deixou uma marca profunda. Ensinou-nos empatia, curiosidade e convivência. E fez isso antes de existir a palavra “conteúdo”. Hoje tudo é conteúdo. Na altura era simplesmente televisão feita com alma.

E sinceramente? Entre isso e certos programas de hoje… tragam-me outra vez o Poupas.

Bjs

Querido neto,

A Rua Sésamo foi a versão portuguesa do programa infantil norte-americano Sesame Street. Em Portugal foi exibida pelos canais RTP1 e RTP2 entre os dias 6 de novembro (dia do teu aniversário), de 1989 a 27 de maio de 1996. No total foram 440 episódios transmitidos, cada um durando 30 minutos.

A Rua Sésamo tratava as crianças como pessoas inteligentes. Isto era raro. Muito raro. Na altura, muitos programas infantis falavam com os miúdos como se fossem todos ligeiramente… nabos.

Na Rua Sésamo não. Havia humor, criatividade, música, diversidade, imaginação. E sem precisar de efeitos especiais milionários. Bastava um sapo de feltro e uma canção sobre o número 7.

E atenção: aquilo funcionava mesmo. Ainda hoje a tua geração sabe distinguir letras graças ao programa. Quer dizer… alguns comentários no Facebook mostram que nem todos aproveitaram, mas pronto, não se pode ganhar sempre.

E talvez seja por isso que ainda nos emociona. Porque, no fundo, aquela rua era o sítio onde muitos de nós aprendemos que crescer podia ser uma aventura alegre. Mesmo com um vampiro obcecado por contar coisas e um monstro com problemas sérios de autocontrolo alimentar.

A minha querida amiga Maria Emília Brederode foi a menina da Rua Sésamo, que não podemos esquecer. Pedagoga, militante antifascista, humanista e muito mais.

Na nossa vida cruzamo-nos com pessoas que nos iluminam. Foi o caso dela.

Foi um privilégio para mim participar na adaptação da Rua Sésamo, integrando a equipa de guionistas residentes da versão portuguesa do programa. Também participei na criação de conteúdos infantis e colaborei na revista oficial do programa, incluindo a rubrica “Livros”, nos anos 90.

Sabes que foi esta avó, que tanto te ama, que escreveu a célebre canção: “Orgulho em ser uma vaca”?

«…tenho orgulho, orgulho, em ser uma vaca; vaca, vaca…; tenho orgulho em dizer muuuuu e não miau…»

Bjs