quarta-feira, 15 jul. 2026

Regresso aos 90’s

Lisboa deixou de ser apenas uma capital bonita e antiga; passou a mostrar que também podia ser moderna, inovadora e internacional. Vieram turistas, empresas, novos transportes e uma nova forma de pensar o espaço urbano.

Querida avó,

Tenho folheado o livro “LX90”, uma cápsula do tempo que nos leva a uma Lisboa, e a um Portugal, tão diferente dos dias de hoje.

Foi uma década que me marcou bastante. Foi quando comprei a minha primeira casa. Hoje, sair de casa dos pais com vinte e tal anos, é quase um evento mitológico.

Comprar a primeira casa é uma conquista enorme. É a prova de que os sonhos podem mesmo ganhar paredes, portas... e uma prestação mensal que nos irá acompanhar ao longo de infinitos anos.

Foi a década em que aparecerem os primeiros telemóveis. Os bisavós dos telemóveis de hoje. Naquela altura só davam para fazer chamadas. Hoje dão para tudo e mais alguma coisa, inclusive para fazer chamadas. «Tou xim... é para mim!» foi uma frase do icónico anúncio, que se tornou um dos maiores fenómenos da publicidade em Portugal.

A Expo 98 trouxe-nos uma nova Lisboa. O mais engraçado é que, na altura, muita gente dizia: «Isto nunca vai resultar». Em Portugal temos um talento especial para prever catástrofes que nunca acontecem. Felizmente, enganaram-se.

Foi a década em que foi construída a Ponte Vasco da Gama, o Colombo, e muito mais.

Hoje, quando passeio pelo Parque das Nações, olho à minha volta e penso que a Expo foi muito mais do que uma exposição. Foi uma mudança de mentalidade. Foi a prova de que uma cidade pode reinventar-se sem perder a alma.

Lembro-me de visitar o Oceanário pela primeira vez. Fiquei fascinado. Na minha infância, para ver peixes exóticos era preciso ter imaginação, ou ir ao velhinho Aquário Vasco da Gama.

De repente, Lisboa virou-se para o rio como quem reencontra um velho amigo depois de anos sem falar.

Lisboa deixou de ser apenas uma capital bonita e antiga; passou a mostrar que também podia ser moderna, inovadora e internacional. Vieram turistas, empresas, novos transportes e uma nova forma de pensar o espaço urbano.

Bjs

Querido neto,

Tenho 83 anos, sou jornalista há mais tempo do que muitos imaginam que uma pessoa possa trabalhar, e costumo dizer que vivi várias Lisboas. A Lisboa dos elétricos sempre atrasados, a Lisboa das máquinas de escrever que faziam mais barulho do que algumas motas, e a Lisboa que apareceu depois da Expo 98.

Antes da Expo, aquela zona oriental da cidade era um sítio que ninguém mostrava nos postais. Quando eu ia fazer reportagens por lá, voltava para a redação com os sapatos a pedir reforma antecipada. Havia armazéns abandonados, terrenos degradados e uma sensação de que Lisboa acabava muito antes de chegar ao Tejo.

Depois veio a Expo 98.

Lembro-me perfeitamente da excitação. Os jornalistas andavam numa correria permanente. Parecia que a cidade inteira tinha tomado café a mais. Até pessoas que nunca tinham distinguido uma sardinha de um bacalhau passaram a discutir os mares do planeta com enorme convicção.

E que transformação! Onde havia abandono nasceram jardins, avenidas, espaços públicos e edifícios modernos.

A minha vida também mudou. Primeiro porque passei meses a escrever artigos sobre a Expo. Segundo porque comecei a andar muito mais. Caminhava quilómetros sem dar por isso. O meu médico ficou encantado. Os meus joelhos, nem por isso.

Também foi a prova de que eu conseguia trabalhar até às tantas, correr atrás de notícias e ainda encontrar energia para dançar nos eventos da Expo.

A Expo 98 foi um dos momentos mais importantes da Lisboa moderna. Mudou a cidade, mudou hábitos, mudou perspetivas. E mudou até a forma como muitos lisboetas olham para o Tejo.

Quanto a mim, continuo aqui, aos 83 anos, a escrever, a observar e a contar histórias. A diferença é que agora escrevo num computador em vez de uma máquina de escrever. Embora, entre nós, às vezes tenha saudades daquele barulho. Parecia que as notícias saíam mais depressa.

Bjs