Querida avó,
Entre os dois fins de semana de Rock in Rio, tenho aproveitado para pôr a leitura em dia.
Os escritores portugueses continuam a praticar uma forma muito peculiar de assalto à carteira. Não usam máscaras nem armas. Usam apenas boas frases e bons temas que transformam em livros maravilhosos.
Na Feira do Livro de Lisboa entrei no stand da LeYa. Foi o meu primeiro erro. O segundo foi aproximar-me da mesa das novidades.
Lá estavam eles, os novos livros de Luísa Sobral e de Lídia Jorge, lado a lado, como duas pessoas à espera do autocarro, mas de universos completamente diferentes.
O livro da Luísa parecia olhar para mim com ar cúmplice:
– Anda cá. Tenho histórias do quotidiano. Vais rir-te.
O da Lídia Jorge mantinha uma expressão literariamente séria:
– Aproxima-te. Vamos refletir sobre a condição humana durante as próximas 208 páginas.
Devorei-os em dois dias.
Da Minha Janela, de Luísa Sobral, são pequenas histórias que abrem uma janela sobre o quotidiano da autora, tão familiar e reconhecível quanto divertido. Estes textos fazem-nos pensar sobre o dia a dia. É como se a janela da Luísa fosse, afinal, também a da nossa casa.
Já o ano passado tinha gostado muito de ler o livro Nem todas as Árvores Morrem de Pé, da mesma autora.
O Céu Cairá Sobre Nós, da “nossa” Lídia Jorge, é um conjunto de crónicas que, pela sua importância e pertinência, não podiam deixar de ser lidas pelos leitores portugueses. O livro termina com o fantástico discurso proferido pela autora em Lagos, a 10 de Junho de 2025, aquando das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esse texto provocou uma polémica que de algum modo marca as contingências paradoxais do nosso tempo. Que feliz ideia a de o publicarem, em livro, para que não caia no esquecimento.
Já te disse que vou levar um grupo de “grisalhos” ao Rock in Rio? Depois conto-te tudo.
Bjs
Querido neto,
Tive a minha televisão avariada durante três dias… até o técnico poder cá vir. Chegou e passado nem dois minutos olhou para mim a rir e disse: «já está boa!». E eu: «o que é que tinha?». E ele: «o comando precisava de pilhas novas!».
Tive tempo para refletir saibre recordações do passado. Nestes últimos tempos tenho-me lembrado de coisas que se passaram sei lá há quantos anos… (E isto só muito raramente me acontece…).
Imagina que eu ainda me lembro da primeira notícia que escrevi no Diário de Lisboa! E eu comecei a trabalhar no DL em 1961!
Era assim: “Os “Antónios” vão de viagem até à Covilhã”.
Eu tinha então 18 anos e, nessa altura, os “grupos onomásticos” eram muito importantes. Ou seja, as pessoas juntavam-se em grupos de gente com o mesmo nome – e faziam excursões, organizavam encontros, palestras, etc.
Por acaso não me lembro de então haver grupos onomásticos com nomes de mulheres – nesse tempo as mulheres estavam em casa a tratar do marido e dos filhos e não se metiam em nada.
Mas se me lembro especialmente desta notícia é porque o meu chefe de redação, Manuel Azevedo (um grande jornalista, infelizmente tão esquecido…) emendou-a tantas, tantas vezes que eu pensava que ela nunca mais iria ser publicada.
Nessa altura ninguém sonhava que um dia iria haver escolas de jornalismo.
Cada um aprendia com os outros colegas – que, nos jornais se chamavam sempre “camaradas”.
E, na minha notícia, eu não tinha dito em que dia tudo se passara, nem onde, nem com que pessoas, nem se se conheciam antes… Resumindo: não tinha dito nada.
Mas do que me lembro melhor é da importância que tinham os grupos onomásticos! Ai de nós se falhássemos alguma notícia a seu respeito!
Acho que um dia destes vou organizar o Grupo Onomástico “As Alices”… E vão ver o sucesso que vai ser!
Quando vens à Ericeira visitar a avó? Traz-me esses livros todos, por favor!
Diverte-te pelo Rock in Rio.
Bjs