segunda-feira, 09 mar. 2026

Presidenciais

Ramalho Eanes não foi o Presidente das frases memoráveis, mas foi o Presidente das consequências evitadas. E isso, embora não renda estátua com pompa, rende algo bem mais raro: um regime que sobreviveu. E, para uma democracia jovem e meio atrapalhada como a portuguesa, isso já foi uma presidência com final feliz.

Querida avó,

Chegou a hora de escolhermos o novo Presidente da República.

As minhas primeiras memórias de Presidentes da República, são com o Ramalho Eanes. Tomou posse no dia 14 de julho de 1976, com 41 anos, tornando-se o Presidente da República mais jovem de sempre e também o primeiro a ser eleito por sufrágio universal, logo a seguir ao 25 de abril.

Ramalho Eanes entrou para a democracia portuguesa para «garantir que a casa não pegava fogo». Num momento histórico em que muitos queriam ser protagonistas.

A democracia ainda era um projeto em rascunho, escrito a lápis, com muitos pontos de interrogação. E eis que surge Ramalho Eanes — um militar que tinha o defeito grave, quase subversivo, de ser sério.

Eanes não parecia particularmente interessado em ser amado. O que ele queria mesmo era algo mais radical: que a democracia funcionasse.

Enquanto uns sonhavam com revoluções permanentes e outros com o regresso discreto do passado, Eanes ficou ali no meio.

Eanes não quis ser ‘dono’ da Democracia. Não tentou moldá-la à sua imagem, não se apaixonou pelo poder, mas pela ‘missão’. Cumpriu o mandato, respeitou as regras e saiu de cena — outro gesto revolucionário num país habituado a figuras que entram para a história, mas se recusam a sair dela.

No fundo, Eanes provou que a democracia não precisa de salvadores épicos todos os dias. Às vezes, ela só precisa de alguém suficientemente teimoso para defendê-la quando ela ainda é frágil, suficientemente discreto para não a sequestrar, e suficientemente aborrecido para levar as instituições a sério.

Ramalho Eanes não foi o Presidente das frases memoráveis, mas foi o Presidente das consequências evitadas. E isso, embora não renda estátua com pompa, rende algo bem mais raro: um regime que sobreviveu. E, para uma democracia jovem e meio atrapalhada como a portuguesa, isso já foi uma presidência com final feliz.

Viva a democracia!

Bjs

Querido neto,

Como sabes, sou muito amiga do Ramalho Eanes.

Há quem diga que Eanes foi ‘frio’. Mas, convenhamos, em 1976 isso era mais virtude do que defeito. O país estava emocionalmente inflamado; alguém tinha de ser o adulto na sala. Eanes foi esse adulto que dizia ‘calma’, ‘vamos lá ler a Constituição’ e ‘isso não está no orçamento’, enquanto os outros reviravam os olhos.

O que poucos conhecem é o sentido de humor do Ramalho Eanes. Cada vez que estamos juntos, é uma risota.

Também gosto muito da Manuela Eanes (finalmente vamos voltar a ter 1.ª Dama). Todos somos gratos do legado que desenvolveu, nomeadamente com o Instituto de Apoio à Criança.

Arrisco a dizer que a maioria já nem sabe o nome do primeiro Presidente da República, eleito constitucionalmente após a implantação da República. Manuel de Arriaga foi eleito a 24 de agosto de 1911 e exerceu o cargo de 1911 a 1915.

Quando nasci, em 1943, o Presidente da República era o Marechal Óscar Carmona. Governou como entre 1926 e 1951, sendo o primeiro presidente da ditadura militar e do Estado Novo.

Como vês, sou muito velha. Como tal, não tenho dúvidas nenhumas em quem vou votar nas Presidenciais!

Vivi e trabalhei muito no tempo da censura. Lutei contra a Pide. Não entendo como existe tanta gente que quer pôr em risco aquilo que nos custou tanto a concretizar.

Ouviste as notícias recentes sobre ‘censura’ e ‘fascismo cultural’ após intervenção duma deputada municipal, de um certo partido, em Lisboa?

A dita cuja viu a programação do Teatro do Bairro e apelou ao executivo municipal que «comece a compreender que os eleitores de direita merecem uma política cultural de direita» e reclamou: «Nós podemos ter cultura de direita!»

Isto porque não concordou com a programação do Teatro do Bairro.

Muitos dizem que a ditadura e a censura estão longe de voltar. Será que está assim tão longe?

Viva a democracia!

Bjs

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