quinta-feira, 11 jun. 2026

Peregrinações

Peregrinar não é só chegar lá. É perceber que, entre dores nos pés e gargalhadas pelo caminho, as pessoas vão ficando mais leves por dentro. Isso, nem precisa de milagre para acontecer.

Querida avó,

Tenho visto imensos peregrinos a caminha de Fátima.

“A Fé Move Montanhas”: um ensinamento bíblico que nos indica que uma fé sincera, mesmo pequena como um grão de mostarda, é capaz de superar obstáculos intransponíveis, problemas graves ou doenças. Precisamente o que sinto, e vejo, em cada peregrino. As motivações que levam cada um colocar-se a caminho de Fátima.

Passados 109 anos, desde as primeiras aparições, a fé dos atuais peregrinos mantém-se inabalável.

Tenho imensa admiração por quem o faz. Nunca o fiz. Não sei se algum dia o farei. No entanto, não sou capaz de passar na A1 sem parar em Fátima para rezar e agradecer. Nunca pedi nem prometi nada! Apenas agradeço pelo que a vida me dá.

Depois de uma visita ao Santuário, sinto-me com uma fé renovada. Cheio de histórias para contar dos testemunhos que oiço dos peregrinos.

Há quem vá descalço, há quem vá em silêncio. Há os que vão em grupo e os que caminham sozinhos…. Há até quem vá a pedir boleia divina a cada quilómetro. Mas todos vão com uma coisa em comum: Esperança. E uma Fé que não se explica, sente-se.

Muitos rezam a Nossa Senhora outros aos Pastorinhos – Lúcia dos Santos, Francisco Marto e Jacinta Marto.

Três miúdos que, atualmente, se calhar tinham um canal no TikTok, ou noutra rede social… Mas naquela altura tiveram visões! E ainda bem – porque nos ensinaram que a fé não precisa de Wi-Fi, só de coração aberto.

E as procissões? Aquilo é um mar de gente, velas e emoções. Se o vento ajuda, temos luz. Se não ajuda… temos cera nas mãos. Mas seguimos na mesma, porque fé também é insistência!

Peregrinar não é só chegar lá. É perceber que, entre dores nos pés e gargalhadas pelo caminho, as pessoas vão ficando mais leves por dentro. Isso, nem precisa de milagre para acontecer.

Entre fé, esperança e umas boas piadas, a caminhada pode ser dura… mas o espírito volta sempre bem-disposto.

Que a NSF ilumine o teu caminho.

Bjs

Querido neto,

Escrevi muito sobre Fátima, mas nunca fui a pé, imagina.

Em tempos idos, era para ter ido para fazer uma reportagem para o jornal onde trabalhava. Mas não aconteceu!

Também nunca fui a Santiago de Compostela. A pé, leia-se!

Perdi a conta ao número de vezes que planeei essa peregrinação, mas nunca a fiz.

Ou é porque estava cansada, ou porque não consegui arranjar amigos que fossem comigo, ou é porque tinha coisas inadiáveis para fazer… e os anos foram passando.

Desde muito criança que tenho essa ideia. Desde os tempos em que ia, com os tios que me criavam, passar férias a Mondariz. Acho que nestes tempos já ninguém vai passar férias a Mondariz, possivelmente nem sabe onde é que fica.

Mondariz é uma pequena cidade galega, que fica na província de Pontevedra. Nos anos 1950 estava muito na moda. Era o encontro de muitos portugueses que iam aí passar férias. Além disso, o meu tio era muito amigo de um senhor galego que lá vivia, e gostava de passar os dias a conversar com ele. Era muito divertido estarmos em Mondariz. Ficávamos num hotel muito pequenino.

E durante a tarde chegava ao hotel um grupo de mulheres, todas agarradas a um cajado, que estavam a fazer o Caminho de Santiago.

Paravam ali uns momentos para descansarem, sentavam-se ao pé de nós e contavam-nos tudo: o que as motivava a fazer aquele percurso, os lugares por onde passavam, o que encontravam durante o caminho, e como isso Ihes fazia bem. Muitas delas já era a segunda ou terceira vez que o faziam. E como não se cansavam de repetir – de cada vez era diferente.

Eu ficava fascinada a ouvi-las. E jurava que um dia, quando fosse adulta, iria fazer o mesmo.

Mas a vida dá muitas voltas e, na maior parte das vezes, esquecemo-nos dos nossos sonhos de criança.

Mas, de há uns anos para cá lembrei-me.

E agora é que vai ser!?!?

Vens com a avó?

Bjs