O Verdadeiro Sentido da Páscoa 

No fundo, a Páscoa é isso: fé, família e comida… muita comida. Com esta idade já não corro atrás dos ovos – corro é atrás de uma água com gás.

Querida avó,

Esta semana dei comigo a pensar se os mais novos dão importância à Páscoa e se sabem o seu verdadeiro sentido. 

Embora o comércio se foque em símbolos como o coelho (fertilidade) e o ovo (nova vida), o sentido profundo para muitas famílias reside na União Familiar. Um tempo para reunir os entes queridos e celebrar a vida e o amor. Um período para agradecer pelas bênçãos recebidas e cultivar a fé no futuro.

Pelos menos foi isso que aprendi com os meus avós, embora nenhum fosse católico praticante. 

Tenho 50 anos, o que significa que já sobrevivi a mais Páscoas do que os coelhos nos quintais das minhas avós. Se há coisa que aprendi é que a Páscoa, em Portugal, não é só sobre religião… é também uma prova de resistência ao açúcar e aos restantes “pecados da gula”.

Começa tudo com aquela promessa solene: «Este ano vou comer com moderação». Claro. Depois aparece o folar, o pão de ló, os ovos de chocolate, inúmeras variedades de amêndoas… e pronto, lá se vai a moderação pela janela. Mais rápida que o coelho da Páscoa. Antigamente, um ovo de chocolate era um artigo de luxo. Atualmente, há tantos que até o meu colesterol já celebra a data antes de mim.

E depois há o borrego. Ah, o borrego! Aquela tradição sagrada que divide famílias: metade adora, metade mastiga com respeito e um copo de vinho para ajudar a descer. Eu prefiro o cabrito, claro… mas sempre com aquele pensamento: «Coitadinho do bicho… mas está bem temperado».

Sem esquecer a Visita Pascal, tradição em muitas zonas do país, quando o Compasso entra em casa todos andam a beijar a Cruz. E a casa toda limpa, como se fosse receber a inspeção da ASAE, ou as vizinhas desbocadas (o que não deixa de ser fiscalização perigosa). 

No fundo, a Páscoa é isso: fé, família e comida… muita comida. Com esta idade já não corro atrás dos ovos – corro é atrás de uma água com gás.

Bjs

Querido neto,

Fui uma vez a uma escola onde pergunteis às crianças: «Sabem o que é o Verdadeiro Sentido da Páscoa?»

Respostas: «Os ovos de chocolate?»; «No Natal Jesus nasce, na Páscoa morre e ressuscita»; «Ah, é tipo o Natal versão primavera?»; «O que é ressuscita?»; «E o coelho? O que é que ele tem a ver com isso?»; «E os ovos de chocolate?»

As crianças estavam tão confusas que decidi fazer um livro de “Histórias da Bíblia para Ler e Pensar”, que correu muito bem. Eu acho que, mesmo que uma pessoa não seja católica, deve ler a Bíblia.

Em Inglaterra, a minha neta, quando era miúda, tinha uma disciplina de Religião, em que os meninos aprendiam as religiões que havia, iam ver templos hindus, iam ver mesquitas, igrejas protestantes, católicas, e depois falavam daquilo tudo. E liam a Bíblia, mas liam a Bíblia para ser comentada. Uma vez, fui buscá-la à escola e ela vinha pelo caminho a dizer: «De São Mateus gosto, de São Lucas é que eu não gosto… Oh avó, aquilo é só ‘Faz isto, não faças aquilo!’». Os miúdos agora não sabem nada sobre religião. Daí ter escrito o livro. Até mesmo para saberem lidar com a perspetiva da morte.

Eu já estive tantas vezes perto dela que já quase me habituei! A primeira vez foi quando nasceu a minha filha. Apanhei uma septicemia, a miúda já estava em casa com o pai e eu ainda estava no hospital… Mas safei-me. Depois, tive um cancro da mama e o médico, depois de eu lhe ter perguntado: «Diga-me lá doutor, eu preciso de saber, quanto tempo é que tenho de vida?…», deu-me dois anos. E eu disse «Dois anos de vida? Vão ser os melhores anos da minha vida!».

isto já foi há 33 anos! É inevitável, todos nós morremos, não é? 

Lembras-te de quando te levei à Capela do Rato. És ateu… e gostaste muito! Não ficaste católico, praticante. Nem perto disso. Mas falamos muito de fé.

Vou comer uma amêndoas.

Bjs