Querida avó,
O Luís Represas deixou-nos, prematuramente. Os mais novos ouvem música no telemóvel. Nós ouvíamos os Trovante e sentíamos que aquilo era uma experiência espiritual. Não havia Spotify, havia cassetes, discos, rádio e televisão.
O Luís Represas não cantava. Contava histórias. Um Feiticeiro que nos deixava enfeitiçados a ouvir a sua voz. Punha um país inteiro a olhar para o Tejo, mesmo que estivéssemos parados na EN1 atrás de um trator. E os Trovante? Conseguiram uma proeza rara: juntar poesia, música tradicional e despertar na malta da minha idade o gosto pela música portuguesa.
A primeira vez que o vi os Trovante foi no Pavilhão Municipal do Desporto e Juventude do Forte da Casa, era eu “uma criança”.
As músicas dos Trovante têm uma característica extraordinária: quanto mais velho se fica, melhores parecem. Aos 20 anos achávamos que eram bonitas. Aos 50 percebemos que, afinal, eram um manual de instruções para a vida.
Hoje fala-se muito em “playlists”. Na nossa geração havia apenas duas categorias: “músicas dos Trovante” e “o resto”. Era simples!
Quem nunca cantou um refrão dos Trovante sem saber exatamente a letra? Inventávamos metade, cantávamos a outra metade com convicção e seguíamos felizes. O importante nunca foi acertar nas palavras; era cantar como se estivéssemos a resolver os problemas do país. As suas músicas sempre nos remeteram para inúmeras causas.
Ajudaram-nos a crescer, a apaixonarmo-nos, a fazer viagens inesquecíveis e a acreditar que Portugal também sabe fazer música que arrepia.
E, se ainda hoje ouvimos uma daquelas canções e ficamos em silêncio durante três minutos... não é nostalgia, é “feitiçaria”.
A última vez que vi o Luís foi na Sociedade Portuguesa de Autores, na iniciativa “Autores contados e cantados” do nosso amigo Carlos Alberto Moniz.
Cabe-nos a nós que o Luís, e as suas músicas, se mantenham vivas nas próximas décadas.
Bjs
Querido neto,
Ainda não estou em mim com a partida do Luís, meu amigo Luís. Um dos artistas mais reconhecidos e acarinhados da música portuguesa.
O nome da banda portuguesa Trovante surgiu no verão de 1976, em Sagres, e é a junção de duas palavras: “Trova” (em alusão à música de intervenção e às baladas tradicionais) e “Avante” (no sentido de avançar, ir para a frente).
Falar dos Trovante é falar de uma das bandas que melhor soube transformar a música popular portuguesa em poesia cantada.
O grupo marcou várias gerações com canções, que continuam a emocionar pela qualidade das melodias e pela profundidade das palavras.
Temas como “125 Azul”, “Perdidamente”, “Timor”, “Saudade”, “Ser Poeta” e “Um Caso Mais” tornaram-se verdadeiros clássicos da música portuguesa. Cada um deles retrata emoções universais: o amor, a esperança, a liberdade, a identidade e a nostalgia.
Em “Ser Poeta”, inspirado no célebre poema de Florbela Espanca, os Trovante prestam homenagem ao poder da criação artística e ao sonho de transformar a vida através das palavras. Já “125 Azul” tornou-se um símbolo de juventude, amizade e liberdade, permanecendo uma das canções mais acarinhadas pelo público português.
As suas canções aproximaram a tradição portuguesa de uma sonoridade. Na sequência da luta pela causa timorense, foi convidado pelo Presidente Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste. Mais tarde, seria condecorado com a Medalha da “Ordem de Timor-Leste” pelo Presidente Taur Matan Ruak.
São parte da memória coletiva de Portugal. Ouvir os Trovante é revisitar uma parte importante da cultura portuguesa.
Luís Represas continuava a cantar para um vasto público, apesar da fragilidade física sobre a qual nunca falava.
«Deus leva os que ama; Só Deus, tem os que mais ama».
Juntos iremos manter vivas as suas músicas e as suas causas.
Obrigada, Luís,
Bjs