terça-feira, 18 ago. 2026

O feiticeiro

O Luís Represas deixou-nos, prematuramente. Os mais novos ouvem música no telemóvel. Nós ouvíamos os Trovante e sentíamos que aquilo era uma experiência espiritual. Não havia Spotify, havia cassetes, discos, rádio e televisão.

Querida avó,

O Luís Represas deixou-nos, prematuramente. Os mais novos ouvem música no telemóvel. Nós ouvíamos os Trovante e sentíamos que aquilo era uma experiência espiritual. Não havia Spotify, havia cassetes, discos, rádio e televisão.

O Luís Represas não cantava. Contava histórias. Um Feiticeiro que nos deixava enfeitiçados a ouvir a sua voz. Punha um país inteiro a olhar para o Tejo, mesmo que estivéssemos parados na EN1 atrás de um trator. E os Trovante? Conseguiram uma proeza rara: juntar poesia, música tradicional e despertar na malta da minha idade o gosto pela música portuguesa.

A primeira vez que o vi os Trovante foi no Pavilhão Municipal do Desporto e Juventude do Forte da Casa, era eu “uma criança”.

As músicas dos Trovante têm uma característica extraordinária: quanto mais velho se fica, melhores parecem. Aos 20 anos achávamos que eram bonitas. Aos 50 percebemos que, afinal, eram um manual de instruções para a vida.

Hoje fala-se muito em “playlists”. Na nossa geração havia apenas duas categorias: “músicas dos Trovante” e “o resto”. Era simples!

Quem nunca cantou um refrão dos Trovante sem saber exatamente a letra? Inventávamos metade, cantávamos a outra metade com convicção e seguíamos felizes. O importante nunca foi acertar nas palavras; era cantar como se estivéssemos a resolver os problemas do país. As suas músicas sempre nos remeteram para inúmeras causas.

Ajudaram-nos a crescer, a apaixonarmo-nos, a fazer viagens inesquecíveis e a acreditar que Portugal também sabe fazer música que arrepia.

E, se ainda hoje ouvimos uma daquelas canções e ficamos em silêncio durante três minutos... não é nostalgia, é “feitiçaria”.

A última vez que vi o Luís foi na Sociedade Portuguesa de Autores, na iniciativa “Autores contados e cantados” do nosso amigo Carlos Alberto Moniz.

Cabe-nos a nós que o Luís, e as suas músicas, se mantenham vivas nas próximas décadas.

Bjs

Querido neto,

Ainda não estou em mim com a partida do Luís, meu amigo Luís. Um dos artistas mais reconhecidos e acarinhados da música portuguesa.

O nome da banda portuguesa Trovante surgiu no verão de 1976, em Sagres, e é a junção de duas palavras: “Trova” (em alusão à música de intervenção e às baladas tradicionais) e “Avante” (no sentido de avançar, ir para a frente).

Falar dos Trovante é falar de uma das bandas que melhor soube transformar a música popular portuguesa em poesia cantada.

O grupo marcou várias gerações com canções, que continuam a emocionar pela qualidade das melodias e pela profundidade das palavras.

Temas como “125 Azul”, “Perdidamente”, “Timor”, “Saudade”, “Ser Poeta” e “Um Caso Mais” tornaram-se verdadeiros clássicos da música portuguesa. Cada um deles retrata emoções universais: o amor, a esperança, a liberdade, a identidade e a nostalgia.

Em “Ser Poeta”, inspirado no célebre poema de Florbela Espanca, os Trovante prestam homenagem ao poder da criação artística e ao sonho de transformar a vida através das palavras. Já “125 Azul” tornou-se um símbolo de juventude, amizade e liberdade, permanecendo uma das canções mais acarinhadas pelo público português.

As suas canções aproximaram a tradição portuguesa de uma sonoridade. Na sequência da luta pela causa timorense, foi convidado pelo Presidente Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste. Mais tarde, seria condecorado com a Medalha da “Ordem de Timor-Leste” pelo Presidente Taur Matan Ruak.

São parte da memória coletiva de Portugal. Ouvir os Trovante é revisitar uma parte importante da cultura portuguesa.

Luís Represas continuava a cantar para um vasto público, apesar da fragilidade física sobre a qual nunca falava.

«Deus leva os que ama; Só Deus, tem os que mais ama».

Juntos iremos manter vivas as suas músicas e as suas causas.

Obrigada, Luís,

Bjs