Mudanças no Mundo

A relação entre avós e netos na Venezuela sempre foi profundamente afetada pela crise socioeconómica e migração em massa, levando a uma situação social complexa onde muitos avós assumem o papel de cuidadores principais, dos netos

Querida avó,

Esta primeira quinzena do ano começou com algumas mudanças no mundo.                            

Como sabes, tenho 50 anos. Isto significa duas coisas muito concretas:

– Lembro-me da vida antes da MTV;

– Dói-me ligeiramente dizer que a MTV acabou.

Antes da MTV, a música era um ato de fé. Comprávamos discos sem saber bem o que vinha lá dentro. Um amigo dizia «isto é bom» e nós acreditávamos, como quem entra numa seita. Os telediscos, hoje videoclipes, eram raros, quase míticos. Apareciam uma vez por semana num programa qualquer, à hora errada, e se piscássemos os olhos… perdíamos o videoclipe preferido e ficávamos frustrados durante uma semana.

Depois veio a MTV. A MTV não era só um canal. Era uma revolução cultural com volume no máximo. De repente, a música tinha imagem, atitude, penteados e roupas que hoje só sobrevivem em fotografias embaraçosas. Aprendemos que que um videoclipe podia mudar uma carreira e que havia gente que cantava… mas sobretudo posava muito bem.

Passávamos horas colados à televisão à espera daquele videoclipe específico, como pescadores pacientes à espera de que o peixe mordesse o anzol… e quando mordia, gritávamos para toda a casa:

– ESTÁ A DAR!

Depois da MTV, tudo mudou outra vez. Vieram os downloads, os streams, os algoritmos que sabem mais sobre nós do que a nossa mãe. A música ficou infinita, imediata, descartável. Já não esperamos por nada – saltamos faixas ao fim de 12 segundos porque “não agarrou”. Antigamente ouvíamos até à exaustão um álbum só para justificar o dinheiro gasto…

E agora fechou a MTV.

Não foi só um canal que desapareceu. Foi um pedaço da juventude coletiva de quem aprendeu a sentir música com imagem, volume e exagero.

A MTV envelheceu. Nós também. Espero não desaparecer, em breve, da forma como está a saúde em Portugal.

Nisto pego no comando … e só aparecem notícias da Venezuela!

Bjs

 

Querido neto,

Falemos da Venezuela, que anda nas bocas do mundo. Por más razões, infelizmente.          Estive na Venezuela há alguns anos (Hugo Chávez era então o Presidente) enviada pelo Instituto Camões para festejar o 10 de Junho com a comunidade portuguesa de Caracas.

Cheguei de noite e logo à saída do aeroporto a paisagem era extraordinária: luzes e mais luzes no que devia ser um grande monte.

«Que lindo!», exclamei.

«Amanhã trago-a cá», disse o senhor, português, em casa de quem eu ia ficar.

E na manhã seguinte eu descubro que aquilo não passava de um enorme bairro de lata com uma lâmpada nas janelas de algumas casas.

Logo me avisaram de que eu nunca devia sair de casa sozinha. Claro que eu não liguei e andei por um lindo jardim que ali havia. No dia seguinte soube que, de um lado do jardim havia um grupo e do outro lado havia outro, com armas nas mãos para lutarem logo ali. E eu a passear, tranquilamente, pelo meio. Também logo me disseram que nunca levasse o braço de fora da janela do carro porque alguém podia passar, dar-me um puxão no braço e roubar-me a carteira.

A relação entre avós e netos na Venezuela sempre foi profundamente afetada pela crise socioeconómica e migração em massa, levando a uma situação social complexa onde muitos avós assumem o papel de cuidadores principais, dos netos.

Os avós e netos na Venezuela, assim como em muitas outras culturas, frequentemente partilham uma relação mutuamente enriquecedora onde a aprendizagem ocorre em ambas as direções. Este intercâmbio é um pilar de muitas famílias, transmitindo tradições e adaptando-se aos novos tempos.

Tive oportunidade de confirmar tudo isso. Já falamos disso, inúmeras vezes.

Todos pareciam conviver muito bem com tudo isso e o 10 de Junho foi uma grande festa!

Fiz amigos que conservo até hoje.

Veremos como irá ficar o futuro dos venezuelanos.

Bjs