quarta-feira, 13 mai. 2026

Mãe

Neste Dia da Mãe, entre as flores, os chocolates e os posts bonitos, há uma coisa que continua igual: a importância delas não cabe num dia. Cabe na vida toda.

Querida avó,

Antigamente, a minha mãe não precisava de “Dia da Mãe”. Era Dia da Mãe ao longo de todo o ano. 

Pensávamos que as mães tinham superpoderes. Conseguíamos estar a fazer disparates na rua, a três quarteirões de casa, e mesmo assim ouvíamos um «olha que eu sei!» quando voltávamos. Não havia GPS, nem telemóveis, nem internet… mas havia uma espécie de radar maternal que a ciência ainda hoje se recusa a explicar.

E o respeito? Bastava um olhar! Um simples arquear de sobrancelha e pronto: fim da rebelião. Atualmente, vejo mães a negociar com os filhos como se estivessem numa cimeira internacional:

«Querido, achas que podíamos considerar a hipótese de arrumar os brinquedos?»

Lá em casa era: «Arrumem os brinquedos, imediatamente!»

E nós arrumávamos. Ou, pelo menos, fingíamos arrumar muito bem.

Agora, atenção: não estou aqui a dizer que as mães de hoje são piores. Nada disso! São diferentes. Continuam com uma capacidade incrível de fazer vinte coisas ao mesmo tempo – incluindo trabalhar, cuidar dos filhos e ainda postar uma foto perfeita nas redes sociais com a legenda “gratidão”.

As mães de hoje preocupam-se com alimentação biológica, desenvolvimento emocional, tempo de qualidade. A minha mãe preocupava-se em garantir que ninguém morria de fome, que estávamos limpos e que tínhamos saúde.

E funcionou.

Mas há uma coisa que não mudou. Nem vai mudar. Seja nos anos 70, 90 ou agora: mãe é aquela pessoa que sabe quando estamos mal mesmo quando dizemos “está tudo bem”. É aquela que continua a tratar-nos como se tivéssemos cinco anos – especialmente quando estamos doentes – e que, de alguma forma misteriosa, continua a ter sempre razão. Mesmo quando não queremos admitir.

Portanto, neste Dia da Mãe, entre as flores, os chocolates e os posts bonitos, há uma coisa que continua igual: a importância delas não cabe num dia.

Cabe na vida toda.

E mesmo assim, às vezes, parece pouco.

Bjs

Querido neto,

Na carta desta semana podíamos falar do Dia de Trabalhador. Mas, inevitavelmente, iríamos acabar por falar da reforma da legislação laboral portuguesa, que o Governo pretende fazer, sobre concertação social e afins.

Como tal, falemos do Dia da Mãe. 

Como bem sabes, costumo dizer que fui a rapariga que saiu mais cedo de casa. A minha mãe não tinha jeito para criar filhos, mas não tenho nenhum trauma. Saí de casa com 5 anos e fui criada por duas tias. Aos 18 anos, já era jornalista no Diário de Lisboa e eram as tias que me iam levar e buscar à redação.

A gargalhada, sonora, pessoalíssima, até desarmante, é presença permanente na minha vida. Sempre foi assim. Foi uma defesa para a infância complicada que tive. Não faço isto por querer; é assim! Mas acho que foi o que me ajudou a sobreviver estes anos todos.

Depois dos meus filhos nascerem, passei a ter noção do amor que uma mãe sente (ou devia sentir) pelos filhos. Até essa data, não sabia o que era instituto maternal.

Deixo-te com esta “Cantiga de Mãe” que escrevi para o meu livro: Rimas Perfeitas, Imperfeitas e mais-que-perfeitas.

«Olha as horas!, Sai da cama! Não demores a acordar!; Lava os dentes; muito bem; – mas…ó mãe!…; Não inventes, mais desculpas; para atrasar!; Passa o pente na cabeça!; Bebe o leite mais depressa!; E não te esqueças também…; – mas … ó mãe!…;  …de levar a papelada assinada que a professora mandou; Vai lá buscar a mochila e vê se, por esta vez, estão prontos os tpc’s!;  E fecha bem..;  – mas…ó mãe!..;  a torneira da banheira!;  Olha o pingo…; – mas ó mãe!…; Mas ó mãe!…; Hoje é domingo!».

Quando eras novo, certamente pensavas que a tua mãe iria ser eterna. Hoje tens a noção da finitude.

No entanto, como sabes, a tua mãe irá viver para sempre no teu coração.

Gosto muito da D. Irene.

Feliz Dia da Mãe. Feliz Dia do Trabalhador. Feliz Dia das Mães Trabalhadoras. 

Bjs