Querida avó,
A Feira do Livro de Lisboa começou esta semana. Como não podia deixar de ser, vou lá estar caído muitos dias.
Os livros são essenciais porque educam, inspiram e ajudam a construir pessoas mais conscientes e preparadas para a vida, entre muitas outras coisas.
Aqui há uns tempos, li a notícia sobre um miúdo de 10 anos, natural do Texas, de seu nome Orlon Jean, que estava empenhado na difícil tarefa de conseguir livros para distribuir entre os miúdos da sua idade e da sua terra, para os incentivar a ler. A maioria deles não tinha dinheiro para os comprar, mas também a vontade não era muita. Uma coisa que lhe fazia muita espécie: como é que se podia viver sem livros? Como é que se podia viver sem ler histórias? (Precisamente o que eu sinto). Dizia a notícia que ele se tinha mexido de tal maneira, falado com toda a gente, apelando nos canais de televisão, dando entrevistas… que, neste momento, tinha 120 mil livros para entregar. Claro que o Texas é enorme – mas já é um bom começo.
A imagem de Santa Ana ensinando a Virgem Maria a ler é um dos temas mais populares na arte cristã. Vejo frequentemente essa imagem nas igrejas que visito. O nosso Santo António também tem um livro (a Bíblia).
Por falar do poder dos livros, não posso deixar de referir Salman Rushdie, o escritor conhecido pelo realismo e críticas políticas. O livro Os Versículos Satânicos (publicado em 1988) é um romance que usa ficção e alegorias inspiradas na vida do profeta Maomé. Em agosto de 2022, foi esfaqueado cerca de 10 vezes durante uma palestra em Nova Iorque.
Um homem com uma caneta tem mais poder do que um homem com uma faca?! Resume perfeitamente a vida do escritor. As ideias e a literatura resistem ao tempo, enquanto a violência física é limitada.
A moda agora são as influencers e booktokers. Será que no futuro os autógrafos serão digitais?
Ainda me lembro dos meus avós assinarem dessa forma.
Bjs
Querido neto,
Essas notícias deixam-se sempre entusiasmada.Ouvia falar de uma jovem, de seu nome Marta Pais Almeida, de 17 anos, natural de Cascais, que fundou uma organização chamada EstuDAR (significando És Tu a Dar) para angariar fundos para enviar livros e material escolar para os países lusófonos. Marta, antes de entrar no curso de Direito, estudou no Colégio Amor de Deus de Cascais. Aos 9 anos acompanhou o pai a Moçambique e nunca esqueceu aquelas crianças a quem faltava quase tudo. Anos mais tarde, assistindo na televisão às reportagens sobre os ciclones que tinham devastado a cidade da Beira, e olhando para a sua mesa de trabalho cheia de canetas e lápis que ela nunca iria usar, resolveu-se. Arranjou uma equipa de voluntários e, em janeiro de 2020, formalizou a criação da sua organização.
Moçambique foi o primeiro país a receber ajuda seguida de S. Tomé. Cadernos, mochilas, lápis, canetas, borrachas, livros de histórias, tudo de que precisassem – menos livros escolares, por não serem compatíveis com o ensino desses países. Quando leio estas notícias, lembro-me sempre da altura em que cheguei a Timor. Aquelas crianças não tinham nada, mas não pediam esmolas. Nunca vi um sequer a pedir esmola. A única coisa que todas pediam era lápis e borrachas.
E, já agora, embora não tenha muito a ver com isto, mas que tem a ver com livros oferecidos, uma das coisas que me fascinaram quando fui a Chicago pela primeira vez foi ver que as grandes livrarias, quando às 7 horas fechavam as portas, colocavam cá fora caixotes e caixotes de livros, com algum (mínimo) defeito. E as pessoas podiam levar os que quisessem. Claro que foi a primeira coisa que a minha neta Adriana me disse quando lá cheguei. As bibliotecas também aumentaram muito com estas dádivas. Seria bom que as nossas livrarias e editoras fizessem o mesmo.
Não te esqueças das minhas encomendas.
Boas leituras.
Bjs