Querida avó,
Acabei de ler um artigo com a informação de que, no final de dezembro de 2025, a Dinamarca se tornou o primeiro país do mundo a descontinuar o serviço postal estatal para o envio de cartas em papel,
Isto não significa que as cartas desapareceram completamente na Dinamarca, mas sim que o serviço público (operado pela empresa PostNord) deixou de as distribuir, devido a uma queda de 90% no volume de correspondência física desde o ano 2000, tornando o serviço inviável economicamente.
Como não podia deixar de ser, lembrei-me logo de ti e da importância que os postais e cartas têm para ti.
Os saudosos postais que, ainda não há muitos anos, serviam para comunicar com os namorados ou com a família quando se rumava ao Algarve para férias… estão em vias de extinção, imagina.
Tu que pertences a uma geração que durante muitos anos comunicou através de cartas e postais.
Obviamente, também pertences àquela espécie em vias de extinção (ou se calhar já extinta, sem ter dado por nada) que ainda dá um trabalhão dos diabos aos correios, onde toda a gente te trata como se fosses da família…
Nas tertúlias onde participo, inevitavelmente falamos dos soldados que estiveram nas colónias portuguesas e que cada carta e cada postal (que enviavam e recebiam) eram um sopro de casa no meio da distância e da guerra – palavras que aqueciam o coração, davam força nos dias mais duros e mantinham viva a esperança de voltar.
Adoro o famoso postal – que ainda hoje está na tua carteira – que o teu filho, aos 8 anos, te mandou de Coimbra, onde estava num torneio de xadrez, em que dizia: «Mãe, não tenho nada para dizer. Beijos».
Claro que o e-mail e o telemóvel foram grandes invenções! como é que podíamos viver sem eles?
Mas não consegue criar laços que só o contacto físico com o papel conseguiu, durante séculos.
Bjs
Querido neto,
Hoje vou falar de postais, outra vez. Há mais de 8 anos que pertenço a uma organização internacional chamada Postcrossing. Simplificando ao máximo, nós mandamos postais para o mundo inteiro e o mundo inteiro manda postais para nós.
Recebo (e envio…) postais para os sítios mais estranhos – e fico sempre muito feliz quando muitos russos me dizem que leram o meu livro “A espada do rei Afonso”. Ou quando um rapaz da Holanda perguntou: «Foi a Senhora que escreveu o livro “Flor de Mel”, que a minha mãe me obrigou a ler em pequeno?».
Normalmente mandamos um postal a uma pessoa, essa pessoa agradece e passamos a outra. Mas às vezes, vá-se lá saber porquê, criamos uma certa empatia com um ou outro e ficamos a escrever-lhe particularmente. Foi o que aconteceu com a Maria Maitikainem, uma finlandesa, a viver na Alemanha. Trocamos imensos postais e cartas. No Natal mandava-me pequenos presépios para a minha coleção.
Da Ericeira mandava-lhe muitas conchas que ela adorava. Uma vez fiz-lhe um cachecol e mandou-me logo uma fotografia dela a usá-lo. Um dia disse-me que tinha Lúpus – e que por isso tinha de estar às vezes no hospital –, mas que assim que estivesse melhor queria muito vir à Ericeira. Foi a última vez que nos contactámos. Semanas depois recebi uma carta do marido dela a comunicar-me que ela tinha morrido. Dizia-me: «Nestes últimos tempos as suas cartas e postais eram a única coisa que a ligavam ao mundo. Quando chegavam, ela ficava outra pessoa e dizia-me que até nem sentia tantas dores. Por isso lhe agradeço o bem que lhe fez».
É por isso que às vezes, quando estou cansada, e penso desistir desta organização (dá trabalho, gasta-se muito dinheiro em postais e selos…), não o faço porque penso nela. Sabe-se lá quando um simples postal pode tocar o coração de uma pessoa. Um postal pode ser um estender de mão a uma pessoa que precisa dela.
Vou comprar postais.
Bjs