Querida avó,
Recentemente vinha a descer a Guerra Junqueiro e oiço a conversa de alguém, muito aborrecido, ao telefone. A criatura queria marcar uma consulta para dia 10, de junho. Do outro lado devem-no ter informado que não era possível, pois ouvi:
– Feriado? Por alma de quem??
Por alma de Camões, apeteceu-me responder-lhe.
O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é talvez a única celebração do mundo dedicada simultaneamente a um país, a um poeta e a milhões de pessoas espalhadas pelo planeta. “Já agora, aproveitamos e celebramos tudo de uma vez”.
Camões é um caso único. Há pessoas que nascem, vivem e morrem. Camões nasceu, escreveu um poema gigantesco (entre outras coisas) e nunca mais morreu.
Qualquer português que tenha passado pela escola sabe isto. Pode não se lembrar da senha do portal das finanças, mas lembra-se de ter ouvido falar d’Os Lusíadas às oito da manhã, numa aula em que ainda estava a dormir.
Em Lisboa, por estes dias, o grande protagonista é o Santo António (que nos perdoe São Vicente, o padroeiro da cidade de Lisboa). Será que todos os lisboetas sabem que existe o Santo António milagreiro e o Santo António casamenteiro?
Assim é junho, em Lisboa. De um lado, Santo António a tentar casar metade da população. Do outro, Camões a lembrar que a língua portuguesa é uma das maiores aventuras da nossa história. Pelo meio, sardinhas, marchas, manjericos, música até às três da manhã… e muito mais.
É o único mês do ano em que Lisboa consegue ter uma homenagem literária e, simultaneamente, uma festa popular, uma procissão e arraiais sem fim. A capital transforma-se numa grande “churrasqueira” ao ar livre, e resulta.
Porque, no fundo, os lisboetas sabem uma verdade antiga: há milagres que pertencem a Santo António, mas fazer uma cidade inteira dançar, comer sardinhas e recitar Camões na mesma semana não é para todos.
Bjs
Querido neto,
Chega junho e Lisboa veste-se de manjericos, enche-se de sardinhas e passa um mês inteiro a fingir que dormir é uma atividade opcional. Vivi tudo isso com muita intensidade durante largas décadas.
O Santo António milagreiro (Menino Jesus no lado esquerdo) trata dos assuntos sérios; já o Santo António casamenteiro (Menino Jesus no lado direito) trabalha exclusivamente na área dos relacionamentos.
Sabes que estive recentemente no Fundão?
Nos anos 70 trabalhei no Jornal do Fundão. Escrevia artigos de opinião, fazia crítica literária, o que me apetecesse. Um jornal que honrou muito a Língua de Camões. Nesse tempo era dirigido por António Paulouro, que era também o seu dono. Era um jornal importante, ao nível dos de Lisboa. Basta dizer que, entre os seus colaboradores, se contavam, entre outros, José Saramago, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Artur Portela Filho… Quando se aproximava o fim do ano o António Paulouro mandava uma carrinha buscar todos os colaboradores e lá íamos passar uma semana ao Fundão – com tudo pago (e caixas e caixas de cerejas no regresso).
Com o passar dos anos as coisas mudaram, há muito poucos jornais, e tenho a certeza de que os mais novos nem sabem que existiu um Jornal do Fundão. O de agora lá vai saindo – mas não tem comparação com o desses tempos.
Por tudo isto fiquei muito feliz quando a viúva do último diretor (Fernando Paulouro das Neves) me convidou a ir até lá. Iria falar aos jovens como era ser jornalista no tempo antes do 25 de Abril, da censura de então, etc.
A viagem para lá e para cá foi muito longa, cheguei estafada – mas valeu a pena. Até porque vi velhos amigos de quem tinha perdido o rasto -- e vi uma muito boa exposição sobre o Fernando Paulouro das Neves.
Resumindo: Um regresso ao passado, mas que, para mim, foi também um regresso a um tempo que guardo muito presente em mim. Gostaria de voltar com a minha exposição.
Bjs