terça-feira, 09 jun. 2026

Desigualdades

As desigualdades têm sido uma constante ao longo da história!

Querida avó,

Cada vez que passo junto do Chafariz de El-Rei, em Alfama, fico encantado com a sua beleza. Creio que foi o primeiro chafariz público na cidade de Lisboa, aproveitando as excelentes águas da encosta de Alfama.

Chegou a ter nove bicas em funcionamento. Cada bica era exclusiva de um grupo social. Dado o grande fluxo de pessoas e consequentes desacatos decidiram que seria usado da seguinte forma: «Uma torneira era para os negros forros; outra para os mouros das galés; outra para as moças brancas; outra para os homens brancos; outra para as índias, negras, escravas e lacaios, e uma uma bica de uso geral ou rotativo», imagina.

As desigualdades têm sido uma constante ao longo da história!

No próximo dia 17 de maio comemora-se o Dia Internacional contra a Homofobia, assinalando a remoção da homossexualidade da lista de doenças mentais da OMS em 1990. 

Nos últimos anos temos visto bandeiras LGBTQIA+ em edifícios públicos. Uma forma de assinalar e alertar para esta desigualdade. A partir deste ano, passa a ser proibido hastear bandeiras de movimentos, partidos ou associações em edifícios públicos. 

Creio que Universidade de Coimbra mantém a tradição de hastear a bandeira LGBTQIA+. Será que vão prender o Reitor ou passar uma multa à Universidade? 

Cada vez mais se tem ouvido falar das “Terapias de Conversão”. Proibido e Obrigatório são duas palavras com as quais nem sempre simpatizo!

Esta semana também celebramos o Dia Mundial das Telecomunicações e o Dia Mundial da Internet. As redes sociais estão cada vez mais a promover a desinformação e a disseminação do ódio. É frequente ouvirmos falar de insultos racistas, discursos de ódio contra as raparigas, namorados que exigem a localização das namoradas…

Tudo isto não será um retrocesso? A nossa sociedade não estará cada vez mais a acentuar as desigualdades?

Não te esqueças de dar os parabéns ao Filipe La Féria. 

Bjs

Querido neto,

Ao longo da minha vida, tenho feito o que está ao meu alcance para combater esse flagelo. Lutar contra as desigualdades é fundamental para garantir a dignidade humana e a justiça social. Todos devemos ter as mesmas oportunidades, independentemente da origem, sexo, religião, orientação sexual, cor…

Já sei que a Câmara Municipal de Lisboa este ano não vai hastear a bandeira LGBT. Talvez seja da idade e esteja a fazer confusão, mas jurava que, em 2025, a mesma Câmara (e o mesmo Presidente), foram grandes impulsionadores do EuroPride, enfim.

Por falar em Telecomunicações e internet, recentemente fiquei sem computador e – como escrevo sempre esta crónica quase no dia de a entregar (eu sei, não devia, pois não, mas quem trabalhou sempre em jornais diários, não sabe escrever doutra maneira) – estava a ver que não podia mandar a crónica desta semana.

Um vírus deve ter entrado no meu computador e o desgraçado, durante três dias, nem uma nem duas. Recorro ao meu técnico (o meu salvador nestas ocasiões), ele dá-lhe voltas e mais voltas, depois mete-o debaixo do braço e leva-o para casa para arranjar. Trouxe-o três dias depois, mas ainda não está completamente bem: amanhã volta cá para mudar o teclado.

Mas por agora funciona. E eu penso como estas máquinas fazem de tal maneira parte das nossas vidas, que não podemos passar sem elas.

Recordo os meus primeiros tempos de jornalista, quando os computadores ainda nem eram sonhados.

Penso muitas vezes que as novas gerações de jornalistas nem imaginam o que era então trabalhar num jornal. Paginar no chumbo. (Eu ainda hoje sei ler da direita para a esquerda, com a prática que se adquiria a paginar no chumbo.) Tirar muito poucas fotografias de cada serviço, se gastávamos mais de um rolo, levávamos logo uma rabecada do chefe.

Eu não quero dizer que antes é que era bom, nada disso! Gosto de ter vivido o antes e o agora, ai isso gosto. Só tenho pena de certas desigualdades não acabarem.

Bjs