segunda-feira, 14 set. 2026

Coisas de Verão

Um dia que venhas a Lisboa, mais precisamente à Baixa, vais achar que estás noutra cidade. Desapareceram todas as lojas que faziam parte das minhas memórias

Querida avó,

Como sabes, falamos frequentemente da importância da ligação intergeracional entre avós e netos.

Esta semana fui aos Correios. Na fila estava um neto que acompanhava o avô, que tinha bastantes dificuldades de locomoção e que aguardava pela sua vez, sentado num banco.

Nisto o neto diz: “Avô, tens a braguilha aberta.”

Ao que o avô responde: “Caro neto, se o pássaro está morto a gaiola pode estar aberta!”

Quando vou à praia, vejo que existem muitos avós que se fazem acompanhar pelos netos. Este convívio fora de casa promove a partilha de histórias e saberes, permitindo que as crianças valorizem a companhia (e a paciência) dos mais velhos.

Ainda me lembro das belíssimas sandes que a minha avó Clementina fazia. Vi recentemente um documentário em que referia que o nome sanduíche vem de John Montagu, o quarto conde de Sandwich, um nobre inglês do século XVIII. A história conta que ele pediu carne colocada entre duas fatias de pão para comer com uma mão enquanto jogava cartas, sem sujar os dedos ou parar de jogar, imagina.

Um dia que venhas a Lisboa, mais precisamente à Baixa, vais achar que estás noutra cidade. Desapareceram todas as lojas que faziam parte das minhas memórias.

Recordações das montras de lojas como a Casa Africana, os Porfírios e tantas outras. Tantas horas que passei na Valentim de Carvalho. Saudades da lindíssima loja da Ana Salazar… e tantas outras lojas que fizeram parte da vida de várias gerações. Eram lugares com identidade, onde cada esquina guardava uma história e cada montra despertava uma recordação. Hoje, quando percorremos a Baixa, ficam as saudades desse comércio de outros tempos — uma Lisboa mais próxima, mais familiar e cheia de memórias, e não estas lojas, com nomes estrangeiros, que encontramos em qualquer parte do mundo e não refletem a nossa portugalidade.

Bjs

Querido neto,

Há anos que vivo na Ericeira e nunca me lembro de estar aqui tanto calor!! De resto, tempos houve em que o sol só chegava depois das quatro da tarde! Uma vez o prof. José Hermano Saraiva, num dos seus programas falou sobre a Ericeira e rematou: “a Ericeira não tem banhistas, só tem devotos!”.

Nunca esteve tão quente como agora. Temos, de manhã à noite, um calor que não se aguenta! Ontem à noite, fui com alguns amigos para o Bar Neptuno, como faço sempre. Voltámos para casa por volta da meia-noite – e o calor não tinha abrandado.

Nunca vou a Lisboa por isso mesmo. Muitas mudanças! Já não conheço a cidade onde vivi toda uma vida.

Nos anos 60 eu vivia em Paris, que também já não é a mesma.

Mas um dia as saudades foram mais fortes e decidi voltar para Lisboa.

O meu namorado levou-me ao aeroporto e fez-me prometer uma coisa:

“Nunca mais te vistas de verde!”

Nesse dia eu levava um vestido verde — e ele queria que essa imagem ficasse só para ele.

E eu nunca mais me vesti de verde.

Até que um dia eu pensei: “Que disparate, isto já se passou há mais de 40 anos, vou mesmo comprar uma camisola verde.”

No dia seguinte eu ia à televisão (falar do meu último livro) até calhava bem.

A entrevista estava quase a começar quando eu reparo que a jornalista estava a falar com a régie. E logo a seguir disse-me:

“Estão a perguntar se não se importa que a sua camisola vá aparecer azul?”

Foi então que percebi que o verde tinha desaparecido da minha vida.

Mas aqui há uns tempos tentei vestir uma saia verde – e nessa manhã na esplanada da praia, aqui na Ericeira, um senhor tropeçou e deixou cair um garfo e uma faca que levava no tabuleiro, que se prenderam na minha saia e lhe fizeram uma data de rasgões que a estragaram toda.

Juro: nunca mais me visto de verde!

Esperemos que o frio venha depressa! (Nunca esperei um dia dizer isto, palavra de honra!).

Bjs

Temas