terça-feira, 21 jul. 2026

Casos de Polícia

Os livros são uma espécie de investigação permanente. Procuram pistas sobre quem fomos, quem somos e quem gostaríamos de ser. E, ao contrário dos processos-crime, raramente prescrevem.

Querida avó,

Como não podia deixar de ser, comprei inúmeros livros ao longo das diversas vezes que visitei a Feira do Livro.

Acabei de ler o mais recente livro do Domingos Amaral. No mesmo dia comecei a ler o do Moita Flores. Este ano, os dois autores regressam com belíssimos livros que nos agarram da primeira à última página.

As Filhas do Terramoto, o novo livro de Domingos Amaral, é uma obra que nos transporta para a Lisboa de 1758, ainda a recuperar das feridas do grande terramoto. Desaparecimentos misteriosos, conspirações e uma cidade em reconstrução servem de cenário a uma narrativa que continua o universo iniciado no belíssimo livro Quando Lisboa Tremeu.

Francisco Moita Flores surge com Sangue e Silêncio no Poço dos Negros, um policial ambientado em 1969, em plena sombra da PIDE, onde um homicídio aparentemente simples abre portas para uma investigação cheia de segredos, medos e silêncios. Afinal, como o próprio autor recorda, «os bons policiais têm sempre a obrigação de surpreender o leitor».

A verdade é que os livros e os casos de polícia têm muito em comum.

Os livros são uma espécie de investigação permanente. Procuram pistas sobre quem fomos, quem somos e quem gostaríamos de ser. E, ao contrário dos processos-crime, raramente prescrevem.

E talvez seja essa a grande magia da literatura. Um caso de polícia real termina quando o culpado é encontrado. Um caso de polícia literário só termina quando fechamos o livro. E mesmo assim continua durante dias, enquanto desconfiamos de todas as personagens, refazemos as pistas e tentamos perceber como não vimos o assassino logo naquela página.

Por isso, entre as notícias do dia, os relatórios, os alertas e as notificações do telemóvel, continua a existir um objeto extraordinário: o livro. Não precisa de bateria, não exige atualizações e nunca pede uma palavra-passe.

Bjs

Querido neto,

Tens toda a razão! Há com cada caso de polícia, na vida real…

Nos jornais onde trabalhei todos os dias chegavam caso de polícia, à redação. Deves lembrar-te do “Ballet Rose”, um escândalo sexual e rede de prostituição infantil, com figuras proeminentes do regime do Estado Novo e da alta sociedade portuguesa. O caso causou grande alvoroço na época e o regime tentou abafar a situação dos anos 60 em Portugal. Creio que até tens o livro. Existem mães deprimidas que se atiram com os filhos da ponte. Todos os dias ouvimos falar de mulheres mortas pelos maridos…

Salvem-nos os livros! “Sem livros não somos livres”.

Há crimes que ocupam as páginas dos jornais durante uma semana. E há crimes que ocupam as páginas dos livros durante uma vida inteira. Felizmente, os segundos costumam ser mais interessantes e dão muito menos trabalho à Polícia Judiciária.

Como sabes, gosto muito do Domingos Amaral e do Moita Flores.

Domingos Amaral tem percorrido caminhos diferentes, mas sempre com o talento de contar grandes histórias. Muitos leitores descobriram-no através de romances como Enquanto Salazar Dormia, A Mala de Cartão ou Quando Lisboa Tremeu, onde a História portuguesa serve de palco para personagens que parecem respirar fora das páginas.

No caso de Moita Flores, a relação com o crime é ainda mais íntima. Antigo inspetor da Polícia Judiciária, construiu uma carreira literária onde a investigação criminal se cruza frequentemente com a História portuguesa. Obras como O Mistério do Caso de Campolide, Os Cães de Salazar, A Fúria das Vinhas e Mataram o Sidónio!, mostram a sua capacidade de transformar episódios históricos e crimes em narrativas envolventes.

Já li todos os livros de ambos aos autores, menos os que referiste. Depois de os leres, podes trazê-los para a avó?

Sabes que a avó estima os livros e gosta muito de ti.

Boas leituras.

Bjs