Querida avó,
Há pessoas que passam o ano inteiro a trabalhar com os olhos postos no mês de agosto. Há outras - como eu - que passam o mês de agosto a trabalhar, e a ver no telemóvel como as outras pessoas estão a aproveitar, aquilo que nós não aproveitámos.
Já deu para ver que (uma vez mais) não fui de férias este agosto.
Enquanto uns iam para o Algarve e publicavam fotografias de águas cristalinas, eu trabalhava. Eles tinham “sunsets”; eu tinha pores-do-sol vistos da janela de casa. Eles estavam “a criar memórias”; eu estava a criar sinergias para futuras iniciativas.
A verdadeira vocação das redes sociais: permitir-nos fazer férias sem sair do sofá.
Bastava abrir o Facebook ou o Instagram e lá estavam eles: os amigos, os primos, os colegas de trabalho, o vizinho do terceiro andar e aquela pessoa que não vejo há quinze anos, todos de férias!
Uma fotografia na praia; outra fotografia num restaurante; outra com os pés dentro de água; outra do prato de arroz de marisco, fotografado de cima… e gelados, muitos gelados!
Depois vinha a inevitável fotografia do pôr do sol, acompanhada de uma frase profunda: «A vida é feita destes momentos».
Pois é. A vida é feita destes momentos e de três horas à espera de mesa, no restaurante. Nós olhamos para aquilo e pensamos: ‘Ainda bem que não fui de férias’.
Eu acompanhava tudo.
Conheci praias onde nunca pus os pés. Visitei hotéis onde nunca dormi. Comi, visualmente, cataplanas, bolas de Berlim e gelados… Quase que aumentei de peso só de ver.
Fiz uma espécie de Interrail digital pelo mundo, sem sair de casa.
Cheguei a um ponto em que já sabia mais sobre as férias dos outros do que sobre a minha própria vida.
Ligava a televisão e via programas sobre destinos de férias, as suas tradições, gastronomia e afins.
Até vi uma série sobre a Ilha de Reunião, imagina.
E assim terminamos agosto. Esse mês em que toda a gente vai de férias, menos eu.
Bjs
Querido neto,
Nunca fui de ir de férias em agosto… mas também tenho acompanhado muitas publicações, no Facebook.
Já que falas da ilha de Reunião, um dia recebi um postal de uma senhora chamada Janine Loupy, que vivia na Ilha da Reunião, e dizia que tinha aprendido português para ler o meu livro Rosa, Minha Irmã Rosa, de que tinha gostado muito. Como diria Bogart, foi o início de uma bela amizade. Eu escrevia-lhe, ela escrevia-me, eu mandava-lhe muitos cadernos daqueles que eu então fazia, com poemas, textos, desenhos, fotografias - tudo de autores portugueses, e ela adorava. Às vezes mandava-lhe mesmo um pequeno livro de um desses autores de que ela tinha gostado. E os meus livros, claro.
Um dia, o marido morreu, ela não tinha mais família, foi para um lar. Mas um lar a sério, com quartos individuais, biblioteca, aulas de línguas, etc. E ela gostava de lá estar.
E continuámos a escrever-nos, pelo menos uma vez por semana.
Depois houve uma semana em que ela não me escreveu. Achei estranho (ainda não tinha telemóvel, nem net...). Escrevi-lhe e, mais uma vez, nenhuma resposta.
Até que veio uma carta. Da diretora do lar.
A informar que Madame Loupy tinha morrido naturalmente, durante o sono, não tinha sofrido e que eu era a única pessoa a quem elas podiam dar a notícia. Contavam-me da alegria dela quando recebia as minhas cartas, os cadernos, os livros - que partilhava com todos do lar. E pedia-me, se eu não me importasse, que todos os livros e os cadernos que, ao longo dos anos eu lhe tinha mandado, pudessem ficar lá na biblioteca, concluindo: «É que há muitas pessoas aqui a quem ela ensinou português e leem esses livros e cadernos».
Claro que disse que sim e ainda lhes mandei mais algumas coisas.
E elas deram o meu nome à biblioteca do lar. De uma terra onde nunca pus os pés, imagina.
Bjs