sexta-feira, 08 mai. 2026

Abril, meu amigo abril

Há coisas que, mesmo antigas, continuam a ser fundamentais – a liberdade, a democracia e o direito de dizer “isto não está bem” sem medos!

Querida avó,

Amanhã celebramos os 52 anos de abril, nosso amigo abril.Abril, para mim, não é só um mês. É quase um estado de espírito.

Nasci já depois da revolução, mas cresci a ouvir histórias de abril. Recentemente, numa escola, perguntaram-me sobre as mudanças que se deram em abril de 1974. A melhor forma que tive de explicar ao mais novos que aquilo não foi só “uma mudança de governo” foi com uma comparação: «Foi como num dia usar o telefone fixo, com disco daqueles de rodar números, para o dia seguinte passarmos a usar um smartphone» – de um dia para o outro, tudo ficou diferente. Antes havia silêncio, depois passou a haver opinião. Antes havia medo, agora… bom, às vezes, excesso de opinião, mas isso já é outro problema.

Celebrar abril é importante porque a memória tem tendência a falhar. O mesmo acontece com a história – se não a celebrarmos, se não a recordarmos, começamos a esquecê-la… e quando damos por isso, estamos outra vez a discutir coisas que já deviam estar resolvidas desde 1974. Entre muitos assuntos, diariamente tenho voltado a falar de assuntos como: “Terapias de Conversão”; “Promoção da masculinidade e da obediência que as mulheres devem ter em relação aos homens” … Daqui a pouco voltamos à “Proibição do Aborto” …

Há coisas que, mesmo antigas, continuam a ser fundamentais – a liberdade, a democracia e o direito de dizer “isto não está bem” sem medos!

Por falar em Liberdade, fiquei muito feliz com o resultado das eleições na Hungria. 

No fundo, celebrar abril é como fazer manutenção à democracia: lembramo-nos de onde viemos para não fazermos asneira para onde vamos. Com esta idade, posso dizer-te: há poucas coisas mais perigosas do que achar que já não é preciso cuidar do que temos.

Celebremos abril. Com orgulho, com memória, com cravos… e, se possível, com algum humor – porque um país que sabe rir também sabe resistir.

E isso, felizmente, ainda não precisa de decreto-lei.

Bjs

Querido neto,

Anda por aí um branqueamento da história e uma vontade de retrocesso que não sei se ria, se chore. 

Há 50 anos nascia a atual constituição. Deves ter crescido a ouvir falar dela: ninguém sabe muito bem tudo o que ela faz, mas toda a gente concorda que é importante tê-la por perto. A Constituição é isso – a base, o manual de instruções do país.

Ao longo dos anos, muita coisa mudou. Quando eras miúdo, achavas que “direitos fundamentais” era teres direito a escolher o canal da televisão – o que, na altura, significava escolher entre dois. Hoje, temos mais direitos, mais voz, mais liberdade para termos as nossas opiniões. 

A Constituição foi sendo revista, adaptada, remendada aqui e ali. E ainda bem. Um país que não atualiza as suas regras fica como um telemóvel com software antigo: lento, confuso e incapaz de lidar com o mundo moderno.

O que devia mudar? Olha, começava por simplificar. Menos complicação, mais clareza. Uma Constituição que qualquer pessoa consiga ler sem precisar de um dicionário jurídico e de um chá de camomila ao lado. E talvez reforçar aquilo que realmente interessa hoje: transparência, responsabilidade, e uma boa dose de bom senso – que, infelizmente, não vem incluído por decreto.

A França tornou-se, em 2024, o primeiro país do mundo a consagrar explicitamente a “liberdade garantida” de realizar um aborto na sua Constituição.

Em Portugal, há quem sinta saudades da “pena perpétua”, imagina.

No fundo, a Constituição é como eu aos 83: precisa de manutenção, de alguma flexibilidade (literal e figurativa), e de aceitar que o mundo mudou – mas sem perder a essência. 

Porque há coisas que nunca devem sair de moda: a liberdade, a dignidade… e a capacidade de rir de nós próprios.

E isso, meus amigos, ainda não precisa de revisão constitucional.

25 de abril, SEMPRE. Fascismo nunca mais!

Já marcaste a tua viagem a Budapeste?

Bjs revolucionários