1.Este é um Mundial especial para Cristiano Ronaldo.
Será o último Campeonato do Mundo como jogador de futebol.
Serão, com esta, 12 fases finais de Europeus e Mundiais, metade por metade.
2.Não sei se os portugueses têm a noção exata da importância extra desta prova.
Para Portugal, em primeiro lugar, porque chega a 2026 com a possibilidade de ganhar o primeiro título da prova mais importante da FIFA em Seleções, com um plantel de reconhecida grande qualidade (em quantidade), mas também para Cristiano Ronaldo na parte final da sua carreira, de mais de duas décadas a espalhar o nome de Portugal um pouco por todos os cantinhos do nosso planeta.
3.Digam o que disserem, mas Cristiano Ronaldo também construiu o seu planeta, a partir do nada.
É um exemplo por isso.
Subiu a corda a pulso.
Uma corda de sisal a desfazer-se, quase a partir, que ele transformou em corda de ouro.
Pelo talento natural, mas também pelo trabalho. Trabalho que nunca abandonou. Nem física nem mentalmente. Até se tornar num poder.
4.Poder que, hoje, utiliza com toda a naturalidade, aos 41 anos, depois de tantas épocas de glória. E não o faz – como poderia ter a tentação de o fazer – como a cigarra.
É bom dizer que a sua presença na Seleção aos 41 anos não é nem uma esmola nem uma imposição, primeiro porque Cristiano não precisa de esmolar seja o que for e porque essa presença ainda resulta de um rendimento apreciável, cujo menor rendimento no último jogo de preparação com a Nigéria não deve ser valorizado, embora possa servir para manter afiadas algumas más línguas.
5.Não é um favor, não resulta de um decreto-lei; continua a ser um ato de justiça, porque é a combinação da memória com aquilo que, desportivamente, ainda consegue acrescentar a um coletivo, seja no clube, seja na Seleção. E isso deve ser contabilizado e não desprezado como em Portugal é tão comum ver-se fazer, com uma injustiça que dói.
6.Também por isso, porque Cristiano Ronaldo merece todo o carinho que lhe possamos transmitir, arrisco vestir a pele de selecionador e ‘convocar’ todos os portugueses para, a partir de hoje, mesmo sem ignorar questões de gestão desportiva, que devem ser acauteladas durante a competição, pelo selecionador e até a partir do nosso ‘capitão’, fazermos deste Campeonato do Mundo um momento de consagração de Cristiano Ronaldo, mostrando-lhe o orgulho que temos em poder desfrutar da sua presença na Seleção, dentro do campo e como o maior embaixador de Portugal de todos os tempos.
7.A avaliação do rendimento será sempre um exercício à parte. Os jogos com o Congo, o Uzbequistão e a Colômbia devem ser geridos com inteligência e maturidade. A sua utilização também é um ato de (auto) responsabilidade. Mas o ponto de partida é esse: a gratidão, o orgulho, o carinho que temos para lhe dispensar. E não nos esqueçamos que este pode ser, igualmente, o último confronto, ao mais alto nível, entre Cristiano Ronaldo e Messi, outro grande astro do futebol mundial. Juntos e separadamente foram eles que marcaram uma era do futebol em todos os continentes.
8.Esta ‘convocatória’ – à qual gostaria de ver associada a Federação e todos os clubes portugueses, o Sporting onde jogou mas também o Benfica e o FC Porto e todos os outros onde não jogou – é acompanhada por uma dose máxima de energia positiva, de um estímulo no limite para que Portugal e Cristiano façam um grande Mundial e, também, de uma única palavra: obrigado!
9. Portugal não é só Cristiano Ronaldo, também porque tem 4 recentes vencedores da Liga dos Campeões – Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Gonçalo Ramos – e porque a força do coletivo será sempre o maior dos argumentos.
A Seleção levanta sempre demasiadas questões e neste Mundial, a começar para Portugal em Houston e Miami, muitas questões serão levantadas. O rendimento, as opções de Martínez, as particularidades técnicas e táticas e a questão física, a intensidade a dar ao jogo, a adaptação ao calor e à humidade e aos fatores externos que possam aparecer em qualquer momento (sejam eles políticos, meteorológicos ou outros) podem marcar a prova, mas há de facto um tributo de toda uma nação que está por fazer… na hora da despedida.
10.Há uma obra para finalizar e essa só faz sentido que se complete com o reconhecimento dos portugueses para quem vai, humildemente, esta ‘convocatória’.
Ela não significa nem menor reconhecimento do que foram os desempenhos e os grandes contributos das maiores estrelas da nossa Seleção, com destaque maior para Eusébio e Luís Figo, mas também para tantos outros jogadores que vestiram a camisola das quinas e aqui envolvo todos os emblemas.
Não tenho dúvidas de que vamos ter muitas saudades de C. Ronaldo e, pelo que se vê, não aparecerá tão cedo um jogador português que, num determinado momento das suas carreiras, tenha reunido tantas qualidades como o fez CR7. E não houve nenhum que fizesse tanto por Portugal.
Até os pinguins na Antártida o conhecem e sabem o que ele significa para o futebol. E por que não os portugueses?
Vamos a isto, juntos?!!!