As redes sociais prometeram proximidade, mas a consequência traduz-se em disponibilidade permanente. Permanecer sempre contactável não deve ser sinónimo de disponibilidade total, assim como, ter muitos seguidores pode não permitir a criação de laços e desenvolver conversas francas e honestas. Passar horas a visualizar vidas de terceiros publicadas nas redes sociais não é o mesmo que pertencer a uma comunidade.
Durante muito tempo, a temática das redes sociais foi abordada de duas formas distintas: “um desastre absoluto”, ou “ferramentas de trabalho inócuas”. Atualmente, a evidência permite efetuar uma abordagem mais prudente e próxima da realidade. Essas redes podem ser úteis, sobretudo para populações isoladas, residentes fora dos grandes centros ou para quem encontra no online um espaço de apoio, expressão e pertença. Todavia, existe o risco de comparação social, da perturbação do sono, da dispersão da atenção, da procura pela validação externa e à gradual incapacidade de estabelecer um relacionamento saudável com o mundo real.
Como profissional de saúde e docente, é importante evitar o exagero. Não é rigoroso dizer que as redes “destroem o cérebro” e “arruínam a capacidade de raciocínio”, porém, são um fator de risco para alguns dos distúrbios já identificados. De acordo com alguns estudos em populações adolescentes, as redes sociais treinam uma sensibilidade maior ao feedback social, à novidade e à resposta imediata, contudo, condicionam nessa fase da vida, o desenvolvimento do autocontrolo, da atenção e da regulação emocional. A adolescência corresponde ao período crítico de desenvolvimento das capacidades cognitivas. Importa ainda distinguir uso frequente de uso problemático. Nem tudo se deve resumir a “horas de ecrã”, devendo ser colocadas as seguintes questões: para que serve?... como se usa?... e, qual o custo? Pois a consequência, reflete por vezes, hábitos muito pouco inofensivos, tais como, perda de controlo, interrupção do sono, ansiedade (existe uma nova publicação?), desgaste emocional ou dependência de aprovação para se sentir valorizado. Destaca-se ainda um dano mais silencioso: a atenção aos bocados. As notificações, os likes, o scroll infinito e a lógica de resposta imediata, conduzem a habituação a um estado de alerta quase contínuo, independentemente do espaço físico onde supostamente se encontram, numa sala de aula, numa consulta, num concerto, num convívio com amigos, numa reunião, ou até mesmo no almoço ou jantar em família. A priorização pela presença nas redes sociais, pode a médio/ longo prazo traduzir-se em relacionamentos desastrosos, comprometer o processo de ensino-aprendizagem e condicionar o bem-estar físico, psíquico e social. Deve ainda ser efetuada a reflexão da “empatia com cuidado”. Pode ser excessivo afirmar que as redes sociais destroem a empatia. No entanto, o uso frequente de ecrãs, pode promover a quebra de sinais humanos, que ajudam a compreender a outra pessoa, nomeadamente, quando já não se consegue evitar respostas impulsivas, rápidas e pouco refletidas. A empatia não foi completamente dizimada, mas foram alteradas as condições em que ela se aprende e se exercita.
Do ponto de vista da saúde pública, o problema transpõe o individuo. Quando uma rede social compromete a tranquilidade do quarto, invade o posto de trabalho, a sala de aula, as refeições e induz a construção da autoimagem, esta deixa de ser apenas uma
ferramenta inócua, e pode criar um ambiente artificial e tóxico. Esse ambiente, pode assim, condicionar o descanso, o humor, a atenção e as relações pessoais, deixando de ser um assunto da esfera privada e carece de ser tratado com seriedade e de forma coletiva. A solução não deverá passar por demonizar ou proibir, mas sim, apoiar na recuperação do controlo no uso das redes sociais (desligando as notificações desnecessárias, protegendo a hora de dormir, criando momentos sem telemóvel e devolver espaço às conversas sem ecrãs em cima da mesa). O essencial não é abolir, mas impedir que as redes sociais passem a gerir, em silêncio, o foco, o descanso, a autoestima e a saúde mental de quem as utiliza.
As Escolas e as Instituições de Ensino Superior, devem estar dotadas de mecanismos que permitam aos jovens e aos adultos utilizar as redes sociais, apenas como suporte ao seu desenvolvimento e evitar um fenómeno generalizado de adição.
Subdiretora Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches
Ensino Lusófona