terça-feira, 21 jul. 2026

Fundos agrícolas europeus, paraísos fiscais e beneficiários efetivos

Em diversas regiões, sobretudo na Europa de Leste, a terra passou a ser vista não apenas como um fator de produção, mas também como um ativo financeiro capaz de gerar rendimentos relativamente estáveis através dos pagamentos da PAC.

Uma investigação recente trouxe para o debate público uma questão pouco discutida da Política Agrícola Comum (PAC): quem são, afinal, os beneficiários efetivos dos fundos agrícolas europeus? Segundo informações divulgadas por diversos meios de comunicação europeus, empresas associadas à família Al Nahyan, que controla o emirado de Abu Dhabi e ocupa posições de destaque nos Emirados Árabes Unidos, terão recebido mais de 71 milhões de euros em pagamentos da PAC entre 2019 e 2024. Mais do que o montante envolvido, o caso suscita questões relevantes sobre transparência, estruturas de propriedade, concentração fundiária e crescente financeirização da agricultura europeia.

Para compreender a relevância deste caso é necessário perceber como funciona uma parte significativa dos apoios agrícolas europeus. Desde as reformas iniciadas nos anos noventa, uma parcela importante dos pagamentos da PAC deixou de estar diretamente ligada à produção agrícola. Em vez de apoiar exclusivamente aquilo que é produzido, os apoios passaram a depender em larga medida da superfície agrícola controlada pelo beneficiário. Em termos simples: quem controla mais hectares tende a receber mais apoios. Esta opção procurou reduzir distorções de mercado e responder a compromissos internacionais assumidos pela União Europeia. Contudo, também criou incentivos que favoreceram a concentração fundiária e a polarização extrema dos pagamentos. De acordo com dados da Comissão Europeia, as explorações com mais de 500 hectares representam cerca de 1% do total das explorações agrícolas, mas recebem aproximadamente um quarto dos apoios diretos.

Ao longo dos últimos anos, a agricultura europeia tem assistido à entrada crescente de fundos de investimento, grupos financeiros e grandes sociedades de gestão de ativos na aquisição de terras agrícolas. Em diversas regiões, sobretudo na Europa de Leste, a terra passou a ser vista não apenas como um fator de produção, mas também como um ativo financeiro capaz de gerar rendimentos relativamente estáveis através dos pagamentos da PAC. É neste contexto que surge o caso Al Nahyan. Uma investigação recente identificou 110 pagamentos da PAC efetuados entre 2019 e 2024 a empresas localizadas em Espanha, Itália e Roménia, totalizando mais de 71 milhões de euros. A

análise das estruturas societárias envolvidas aponta para uma complexa rede de participações cruzadas, incluindo entidades registadas em Chipre, cujo beneficiário final será o fundo soberano ADQ dos Emirados Árabes Unidos.

Independentemente da legalidade das operações identificadas, o caso evidencia um problema mais amplo. Numa política pública que continua a absorver uma parte significativa do orçamento europeu, a identificação dos beneficiários efetivos deveria constituir um princípio elementar de transparência. Quando estruturas societárias complexas dificultam a determinação de quem recebe efetivamente os fundos públicos, aumenta o risco de opacidade e reduz-se a capacidade de escrutínio democrático. A discussão suscitada por este caso ultrapassa, por isso, a situação concreta dos seus protagonistas. O que está em causa é a capacidade de as instituições europeias assegurarem que os mecanismos de apoio agrícola permanecem alinhados com os objetivos que justificam a sua existência e que os cidadãos conseguem identificar, de forma clara e transparente, quem beneficia dos recursos públicos colocados à disposição da agricultura europeia.